JANEIRO BRANCO: MÊS DA SAÚDE MENTAL, SAÚDE MENTAL SEMPRE

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Falar de saúde mental é compreender que esta é, sem medo de ser audaciosa em minha posição, o território, o recurso natural, a tecnologia mais valiosa da existência que cabe ao ser humano explorar. Como ainda somos estrangeiros dentro de nós mesmos, apesar dos  importantes avanços que somos capazes de criar. 

As perspectivas de crescimento dos transtornos mentais e seus inegáveis danos à saúde e à produtividade por cada vez mais incapacitarem ao trabalho e ao desfrutar da vida, torna-se cada vez mais algo que não mais pode ser ignorado, daí a iniciativa de transformar o mês de Janeiro no mês da Saúde Mental -  JANEIRO BRANCO.

Em muitas ocasiões o PSICOLOGIA EM FOCO falou sobre o quanto se tornou insustentável manter a separação corpo e alma - O penso, logo existo de Descartes, somado a todos os pensadores que forjaram a estrutura e o funcionamento do Ocidente, tem se mostrado ineficaz ao longo dos anos para dar conta da comp…

O ENCANTO E A VIDA PRÁTICA: HÁ LUGAR PARA A POESIA?


Este post já estava programado há um tempo,  mas algo aconteceu comigo e desejo compartilhar, pois me fez refletir...

Ontem, conversando com um conhecido percebi algo em mim... Quase sempre quando nos falamos, por gostarmos de ler, um pergunta ao outro sobre o que está lendo. Eu falei que lia poesia e ele, achou bom, mas senti que minimizou.  Disse que lia um livro (ele falou o título, que agora não lembro), mas era um livro com uma visão científica e filosófica. Somos confrades de uma sociedade religiosa e gostamos de ler sobre o tema, além das leituras do trabalho de cada um.

Questionei porque a poesia anda esquecida como produção e ele disse que neste momento da humanidade, a busca maior são de reflexões que busquem mais o conhecimento.Eu disse que a beleza também deveria ter um lugar, assim como o exercício de relativizar a palavra que a poesia traz. Fiquei um pouco mal por dentro, queria contestar mais, porém, recuei deste movimento e observei minha alma vendo que muito pouco gosto de ser contestada. Deu até aquele "nó no estômago" de responder, mas aí pensei: 

Será que era importante replicar? Será que é importante a todo instante ter uma posição formada sobre tudo? Será que o valor do que penso está tão enraizado na minha autoimagem que ser contestada por alguém é sentir o meu ser total ameaçado, desvalorizado, quando o que está em jogo são apenas pensamentos de pessoas que são únicas e têm o direito de pensarem o que e como quiserem sem a necessidade do pensamento convergir para um ou outro lado? Levei pra terapia e daí vi que observar estes meus movimentos sem julgá-los, mas apenas vê-los quando e como acontecem é importante para mim como profissional do ramo da saúde mental e como alguém que é aprendiz. Será que uma coisa é diferente da outra?

 As convulsões de nossos tempos nos fazem ir em busca da compreensão mais ampliada nossa realidade. Isso acontece e é positivo. Meu conhecido está correto no que diz, mas e a beleza, a beleza que diz a verdade a seu modo? Será que há lugar para a poesia?

E para isso trago Marcio Tavares do Amaral com seu artigo  É hora para a poesia? O que você acha? Ih! sem querer acabei fazendo uma escrita terapêutica...rs

Regina Bomfim

É hora para a poesia?

Tem hora para a poesia? Faz escuro, mas eu canto"; escreveu como quem grita contra a noite Thiago de Mello. "... um terceiro tom/ a que chamamos aurora", disse Drummond, num poema triste. "Meio dia, hora da sombra mais curta. Uma algazarra de todos os diabos", foi a palavra de Nietzsche. "A tarde semeia ruínas sobre o corpo", também disse alguém atento ao tempo. E Manuel Bandeira: "O dia foi bom, pode a noite descer. (A noite com seus sortilégios)". Não há tempo para a poesia. Ela é  maior do que os ponteiros que passam. Fica para sempre, como o quarto de Bandeira, "intacto, suspenso no ar". A poesia está suspensa no ar. Nós a respiramos. Só da música somos mais devedores para viver "A música, antes de qualquer coisa", escreveu Verlaine. Mas era preciso um poeta para dizer assim tão claramente a verdade.

Andamos necessitados demais de poesia. E dos poetas. Eles já foram anunciadores do futuro e os senhores do passado. Homero cantou o começo da Grécia. Hesíodo, os inícios do mundo. São João da Cruz  anunciou as bodas com o Amado, a fusão futura com Deus. Também cantaram o presente, o "tempo presente, o mundo presente, a vida presente" (de novo Drummond). E sonharam.. Rilke sonhou. Rimbaud sonhou. Porque sonhar é do homem. Precisamos demais dos poetas porque estamos perdendo a capacidade do sonho. O gosto. A necessidade. Não falta muito e nos convencemos de que os sonhos, no final das contas, não são úteis. Ocupam o espaço das compras. E já tudo foi escrito no tempo em que a Humanidade, pouco prática, vivia se encantando. A poesia de todos os tempos talvez valha um arquivo bem compactado. E pronto. Depois, as coisas sérias.

Na China e no Japão, o último gosto de vida de um samurai antes do suicídio ritual era compor um poema. Aquele que diria quem ele foi. Quando o completava, podia morrer convencido de que o mundo estava completo. A morte perdia sua importância. O fim, o glorioso, era o último poema. Sobre ele os olhos podiam se fechar. No Ocidente grego e latino os poetas usavam coroas de louros. Era o reconhecimento da cidade ao poder da poesia. Coroas cívicas , como a dos guerreiros depois de seus feitos. A poesia era um grande feito.

Não é mais. Ainda há poetas, é claro. Não são uma seita secreta. Mexem com a vida dos que os leem. Adélia Prado conversa com Deus no miúdo da vida comum, a dela e as nossas. Poetas ganham até o Nobel de Literatura. Mas talvez já não aconteça de, quando passa a procissão que os leva ao túmulo (os poetas morrem; a poesia é que não), os homens espantados tirarem o chapéu. E haver tristeza na cidade.

Há poetas e são bons. Devagar, devagar de demais vamos aprendendo que a poesia não é propriedade do Ocidente europeu e das suas transplantações pelo mundo. Chega da África, vem da Ásia junto com o sol quando se ergue molhado de mar. Também a poesia se globaliza, e esse talvez seja um antídoto frente a essa mundialização maior, que traz vantagens que fluem das grandes tecnologias novas, mas também faz encolher a linguagem. Não é bom que a linguagem de todos os dias fique pequena. Porque quando a poesia chega, com suas palavras extraordinárias, não cabe nos tradutores de sinais que alimentam a nossa comunicação. Ou ao contrário. Correm na internet monte de "poemas de Fernando Pessoa". São péssimos prolixos, derramados, com palavras demais e poesia de menos. Fraseado de almanaque. Poemas de araque. Como se "os produtores de conteúdo" quando se põem a falsificar poesia, só conseguem imaginá-la grande e desconjuntada, tão fora do bom parâmetro dos 140 caracteres. A poesia fica manca. Os petas ficam tristes. E não adianta desmentir, gritar contra a falsificação. Na rede não há ouvidos. Não para isso.



Por que precisamos de poesia numa hora dessas? Porque é uma hora dessas. Estamos em transição e não sabemos exatamente para onde. Há coisas em perda, com certeza. E certamente há coisas em ganho. Não sabemos para onde pende a balança, porque perdemos a chave desse cálculo. "Trouxeste a chave?", perguntou Drummond. Não, não trouxemos. Perdemos a chave. Mas a porta ainda não se fechou. Estamos num mundo entre mundos. Nosso lugar agora é estarmos entre. Assusta e atrai. Traz as tentações de fuga para o deserto, por medo do futuro, e no mergulho do abismo, pela vertigem do presente. O mundo ficou vertiginoso - a poesia pode dar ritmo à vida. Reencantar o planeta. Florir os desertos, tirar os assustados do isolamento. Talvez poucos prestem atenção à passagem do anjo da poesia. Mas quem guardou os olhos luminosos da infância vai ver. E cantaremos à vida um canto novo. Pode ser bom.

Fonte: O Globo

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