SOBRE AS FESTAS DE FIM DE ANO

"(...)
Muita coisa a gente faz seguindo o caminho que o mundo traçou, seguindo a cartilha que alguém ensinou seguindo a receita da vida normal.

Mas o que é vida afinal?
Será que é fazer o que o mestre mandou, é comer o pão que o diabo amassou, perdendo da vida o que tem de melhor?"

Carlos Colla e Gilson - autores da canção Verdade Chinesa

O fim de ano chegou e está aberta a temporada das festas. Os enfeites, o movimento nas ruas, as propagandas quase sempre com o cenário da família numerosa, feliz e com uma mesa farta. Este é o modelo de festas que costumamos ter em mente ou que nos ensinam a considerar "o perfeito" e algumas pessoas fazem grandes sacrifícios para se enquadrar. Todavia importa pensar em quem não pode cumprir à risca este modelo.

As festas de fim de ano são para algumas pessoas no mundo, catalizadoras de processos depressivos. A onda de comemorações que em geral motivam reuniões familiares e de amigos, costumam causar profunda angústia para pacientes com histó…

SOBRE A AMBIÇÃO DO AVANÇAR DO TEMPO E SUAS RESPOSTAS: UM TOQUE DE ARTE





Mudança de Idade

 Para explicar os excessos do meu irmão a minha mãe dizia: 
está na mudança de idade. 
Na altura, eu não tinha idade nenhuma 
e o tempo era todo meu. 
Despontavam borbulhas no rosto do meu irmão,
 eu morria de inveja enquanto me perguntava: 
em que idade a idade muda? 
Que vida, escondida de mim, vivia ele? 
Em que adiantada estação o tempo lhe vinha comer à mão? 
Na espera de recompensa, eu à lua pedia uma outra idade. 
Respondiam-me batuques mas vinham de longe, 
de onde já não chega o luar. 
Antes de dormirmos a mãe vinha esticar os lençóis 
que era um modo de beijar o nosso sono. 
Meu anjo, não durmas triste, pedia. 
E eu não sabia se era comigo que ela falava.
 A tristeza, dizia, é uma doença envergonhada. 
Não aprendas a gostar dessa doença. 
As suas palavras soavam mais longe que os tambores nocturnos. 
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
 É a vida para além do sonho.
 Idades mudaram-me, 
calaram-se tambores,
 na lua se anichou a materna voz.
 E eu já nada reclamo. 
Agora sei: 
apenas o amor nos rouba o tempo. 
E ainda hoje estico os lençóis antes de adormecer.

Mia Couto

Comentários