domingo, 29 de janeiro de 2012

Pontos de vista




Atualmente venho pensando sobre apegar-se excessivamente a pontos de vista. Esta dificuldade de enxergar que o que é essencial para mim, pode não ser para o outro e o quanto tal atitude pode fazer com que nos detenhamos em justificativas desnecessárias tentando converter o outro àquilo que pensamos. Isso é tentador, já vivi isso muitas vezes no cotidiano, mas ao mesmo tempo é inútil porque pode fazer com que converter o outro ao que penso se transforme no foco maior do que prosseguir no caminho que cada um tem que desenhar.
 Há que se refletir se o vigor daquilo que acreditamos está em convencer o outro ou empreender os movimentos necessários para fazer acontecer o que queremos. Há situações aonde convencer é importante, quando por exemplo, você cria uma tese e precisa defendê-la para a aquisição de um título acadêmico, mas há outras situações que talvez tudo não precise todo o tempo ser colocado à prova. Será que apenas esta certeza que nos alenta já não é suficiente para seguirmos adiante?

sábado, 28 de janeiro de 2012

PERFIL DE CARGO

Por Berenice Faria - Gerente de RH do Grupo Hermes

Recursos Humanos costuma dizer que "não existe receita de bolo para o sucesso da gestão". Mesmo diante das mudanças no rumo dos negócios, os chamados cargos e funções das empresas ainda são descritos por um conjunto de características que ganha o nome de perfil. E os equívocos em um perfil podem custar caro para organizações, gerando, por exemplo, transferências forçadas, demissões precoces e outros movimentos de pessoal não previstos no momento da contratação de um funcionário.

Embora a definição desses "ingredientes" parta da iniciativa do gestor de cada área, a contribuição ou o suporte do RH precisa ser cada vez mais intenso no sentido de ajudar o gestor a ampliar sua visão. "Percebo que os gestores, em geral, têm alguma dificuldade em levantar o perfil comportamental das vagas que demandam, ou seja, que tipo de atitude suas pessoas precisam ter quando se relacionam no trabalho, ao contrário das competências técnicas que eles passam com precisão", destaca Berenice Faria, gerente de RH do Grupo Hermes, que conta com o apoio de uma equipe de 46 profissionais de RH para dar suporte a um quadro que tem hoje quatro mil funcionários.

FLEXIBILIZAR QUANDO É POSSÍVEL

Berenice enfatiza que, para definir um perfil, deve ser levado em conta todo o histórico de experiência de outros profissionais que já passaram por aquele mesmo cargo. O turnover, por exemplo, é um bom indicador da necessidade ou não de mudança de algum ponto do perfil: se estiver alto, algo deve ser conversado entre o RH e as áreas.

O mercado pode até contar com os chamados "perfis inflacionados" para alguns cargos, mas isso não acontece na Hermes, segundo a gerente de RH, onde em geral se flexibiliza o perfil para as funções operacionais e se leva a rigor o perfil para os cargos mais técnicos que exigem cursos e conhecimentos específicos.

Mas houve o caso de uma vaga para analista de TI que, mesmo após um mês aberta, não havia sido preenchida. Exigia-se dos candidatos uma série de conhecimentos. O RH, percebendo que poderia contribuir, interveio e negociou com o gestor da área. a vaga foi dividida em duas: analista com um tipo de conhecimento e analista com outro tipo de conhecimento. A "estratégia deu certo e em uma semana conseguimos bons profissionais para as duas vagas" comemora Berenice que admite: pelo grande número de currículos recebidos em pouco tempo, ao lançar no mercado uma vaga muito técnica, é preciso priorizar este ponto do perfil

QUE DESAFIOS ELE TERÁ?

Para Cláudia Tinoco, diretora da Ability RH e consultoria de RH, o melhor momento de mudar o perfil de uma vaga é justamente no transcorrer do processo de busca, como fez Berenice no caso da vaga de analista de TI. "Se a mudança for necessária antes, fazê-la após a contratação poderá trazer problemas ao gestor com esse profissional na empresa", aponta.

A consultora ressalta também a importância do detalhamento do levantamento do perfil, que deve focar nas respostas de perguntas como: Qual a experiência que se busca? Que responsabilidades e que desafios esse profissional terá no seu dia a dia de trabalho? Qual o motivo da contratação? A resposta precisa a esta última pergunta vale demais, segundo Cláudia, para ajudar a definir o desenho de cada cargo.

NÃO SE PRENDAM AO QUADRADO

Em uma construção perfil, em geral é importante verificar se o dia a dia do cargo combina com o tipo de profissional que tenha mais disponibilidade de viajar; ou com um que toque mais no conhecimento profundo das ferramentas técnicas; ou ainda necessidade de alguém que, de preferência, não resida longe da matriz da empresa. Cláudia vai além: se a pessoa for proativa demais para as tarefas de um cargo com desenho burocrático ou burocrática ao extremo para uma função que exija muita interatividade, não vai dar certo. Necess casos, o perfil é decisivo mesmo.

Com tudo isso, embora o perfil técnico seja um tópico importante no recrutamento e seleção, Cláudia sempre sugere aos gestores que "contratem pela atitude e não se prendam ao quadrado", sobretudo para os cargos de liderança, nos quais os aspectos comportamentais ganham cada vez mais força independente do segmento da organização contratante.

Fonte: Jornal O Globo - Caderno Boa Chance, Gestão de Pessoas

 

domingo, 22 de janeiro de 2012





Cortinas de fumaça: o nosso dom de iludir... a nós mesmos

"Não sei mais se corrigi alguns medos que vinham me distorcendo, ou se distorci minha personalidade para não percebê-los" (Felipe Hirst)


Achei este fragmento de texto num interessante artigo sobre cinema no Jornal O Globo (para quem se interessar, matéria é do dia 09/01- Segundo Caderno). Pensei, que frase fantástica! Um poder de síntese enorme! pois é um problema presente em todas as teorias de personalidade, seja qual for a abordagem, pois, cada uma a seu modo, enfoca a questão do obstáculo ao crescimento.

  Quem em algum momento da vida não procurou colocar uma "cortina de fumaça" sobre  uma situação para esquecer, para fugir de algo que é tão difícl até de dizer o nome, quanto mais pensar sobre o assunto?

 Às vezes algumas histórias que criamos são tão bem fundamentadas intelectualmente que a mentira toma o lugar da verdade. É aí que a coisa fica complicada e a gente pode perder "o caminho de volta".

Fazer esse "caminho de volta", ou seja, retomar ao mais autêntico em nós é um exercício que não é nada fácil ainda mais neste mundo repleto de "distrações". Saber que há um caminho de volta para sermos o melhor de nós mesmos, já é um passo importante - "abrir o peito a força numa procura"- como diz Milton Nascimento na canção Caçador de mim.

Enfim, é um caminho sem receitas heróicas a ser trilhado individual ou com  ajuda profissional. É um caminho para poder caminhar melhor, achando mais rapidamente o "caminho de volta" porque caminhar é preciso. Sempre.


sábado, 21 de janeiro de 2012

Poesia como múltipla possibilidade de significado e expressão da palavra: o exercício da libertação






Poética
Manoel Bandeira

 
Estou farto do lirismo comedido
do lirismo comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto e expediente protocolo e
[manifestações de apreço ao Sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho
[vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto de lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo

O resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de cossenos secretário do amante
[com cem modelos de cartas e as diferentes
[maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shekespeare

Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Fonte: Os cem melhores poemas brasileiro do século - Ítalo Moriconi. Objetiva 2001






domingo, 15 de janeiro de 2012

sábado, 14 de janeiro de 2012



O mal - estar na 'cultura somática'
Maria Cristina Franco Ferraz - Professora titular de Teoria de Comunicação da UFF e autora de "Homo deletabilis: corpo, percepção e esquecimento do século XIX ao XXI", entre outros livros.
Desde os anos 1990, alguns autores têm assinalado certa alteração no modo de se produzir a subjetividade nas sociedades liberais avançadas. Isso não implica que um modo de construir o "eu" tenha se esgotado, em favor de outro. O que se pode verificar são tendências de transformação em andamento.
Como mostrou Foulcault, a configuração do sujeito moderno esteve ligada à crença em uma interioridade a ser examinada, na qual se aninhava sua verdade mais profunda e autêntica, associada à intância do desejo. A tensão constante entre a força da sexualidade e poderosas pressões sociais se expressava no modo como os conflitos eram vividos e elaborados em narrativas, bem como em novas ciências humanas emergentes na virada do século XIX para o XX, especialmente na psicanálise.
Na passagem do século XX ao século XXI, observa-se um deslocamento da relevância teórica atribuída à psicologia para uma ênfase crescente na biologia sobretudo nos genes, no cérebro e seus moduladores. Quem de nós leigos, relcionava há 15 anos, o termo "endorfina" ao bem-estar após exercícios; "serotonina" ao cansaço e à falta de vontade (cada vez mais remetidos à categoria expandida da "depressão"); "ritalina" à superexcitação dos corpos e a seu correlato, a hiperfragmentação dispersiva da atenção?
Em nosso século, expande-se certa "cultura somática", também no vocabulário cotidiano, como ba expressão "cinema-adrenalina". Não é que tenhamos nos tornado mais "científicos"; nem que ciência tenha afinal desvendado os enigmas do fenômeno humano. O que está em jogo é a disseminação de certas tendências culturais, efeitos de superfície que que exprimem mudanças em curso, mas que também as consolidam, mesmo (e sobretudo sem que percebamos).
Os avanços das pesquisas neurocientíficas impulsionam a cultura somática. A atual tecnociência move-se rumo à ultrapassagem do chamado "erro de Descartes" título de um conhecido livro do neurocientista Antônio Damásio. Esse "erro" consistiria na compreensão do humano baseada em dualismos emperdernidos: a cisão entre o corpo e algo que não seria corpo - quer se denomine alma, espírito, mente. Trata-se de um importante desafio epistemológico que estamos longe de colocar em questão. O problema é que a tentativa de ultrapassagem dos dualismos (há vários, nem todos equivalentes) exige a mudança radical do próprio conceito de "corpo", sob pena de se manter tributária do "erro" que pretende corrigir.
O avanço das neurociências se inscreve tanto nesse movimento de naturalização do humano quanto nesse impasse. Trata-se de um campo heterogêneo, com tensões e discordâncias. O que nos interessa é investigar de que modo estas supostas "descobertas" invadem o imaginário e o horizonte dos sentidos da cultura contemporânea, redefinindo nossos "roteiros de subjetivação".
A expressão "cultura somática" remete a novas crenças (e mitologias) acerca do fenômeno humano . cada vez mais o bem- estar e mal-estar são atribuídos ao funcionamento do cérebro, à bioquímica do corpo. A presença de neurocientistas em programas de TV, explicando a memória dos afetos, reforçam crenças que se popularizam, introduzindo-se no modo de entender a si mesmo e aos outros. Não se trata de lamentar tal mudança, supondo que a subjetividade moderna era mais "autêntica" ou "melhor". Importa discutir as implicações de certas crenças (respaldadas pela ciência) e avaliar os modos de vida que implicam.
Quando o mal-estar é atribuído a funções cerebrais e à bioquímmica do corpo, em vez de suscitar reflexão sobre a vida que está se levando e sobre o mundo que se vive, tende-se a regular o corpo, adaptando- o às exigências de um tipo de vida ligado a valores e pressões produtivistas, à hiperaceleração própria ao capitalismo turbinado. a somatização do "eu", disseminada midiaticamente, produz novas "verdades" assumidas de modo irrefletido, na medida em que são caucionadas pelas neurociências e ancorados no poder de persuasão permitido pelas tecnologias de imagem cerebral,
O avanço das neurociências, incrementado por vultorsoa aportes financeiros e articulado a interesses de indústria farmacêutica, triunfantemente propalado pela mídia, produz novos horizontes de sentido que vão sendo incorporados. O que não é de se estranhar, na medida em que tem a seu favor dois fortes meios de legitimação: a crença na ciência (campo da verdade que restou, após o esvaziamento da transcendência) e o apelo inegável das imagens do "interior" do corpo. Um "interior" não mais habitado pelo psíquico mais material, passível de ser "traduzido" na imaterialidade de bits, tratados como dados algorítimicos e transformados em informação.
O sociólogo inglês Nikolas Rose nota que muitos trabalhos publicados por neurocientistas são perpassados por um tom triunfante e persuasivo. Nesses artigos, expressa-se uma retórica do "ainda não" com ênfase em promessas a serem cumpridas, em futuras descobertas de sua aplicabilidade, como meio de garantir o aporte das somas estratosféricas necessárias a pesquisas e à manutensão de laboratórios.
Como efeitos de superfície, a política pró-cérebro e os interesses envolvidos nas pesquisas exprimem transformações históricas em curso, mas também simultaneamente, funcionam como instrumentos produtores dessas mudanças. Avancemos na investigação dos modos de vida implicados nessa ênfase crescente no cérebro, nos hormônio e genes.
Lembremos o que Walter Benjamin destacava na década de 1930: a falência, identificada por ele na vida moderna, da esfera da experiência vivida e transmissível. O tema benjaminiano do ocaso do narrador já apontava para o declínio do sujeito da fala, para a violência de traumas incomunicáveis. Quando o mau-estar é reduzido ao mal funcionamento da materialidade do corpo, o sujeito apto a narrar suas experiências e a elaborar traumas e lutos se emudece ainda mais.
A tendência de redução de todo o campo do vivdo à atividade cerebral espetacularizada em neuroimagens, dispensando a narração, pode ser remetida ao aumento exponencial de situações traumáticas (das guerras ao cotidiano nos centros urbanos) e a certo esvaziamento da potência transformadora da ação política, ancorada na fala humana e no compartilhamento de experiências.
Exemplos expressivos das transformações do "eu" e da "interioridade" na cultura somática são facilmente encontrados. Lembremos uma exposição que correu o mundo e esteve no Brasil 2008 e 2009: Corpo Humano - real e fascinante". eis como ela foi divulgada em jornais e outdoors: "Você tem um encontro marcado com o seu interior". Nesse slogan, está expressa uma nova prepectiva acerca do que seria um encontro consigo mesmo e, sobretudo, do que consistiria nosso verdadeiro "interior".
Na exposição, corpos reais, cadáveres chineses plastificados, exibem seu verdadeiro "interior": orgãos, visceras, fina rede de veias e artérias, ossos, músculos, mas também próteses - rasurando a velha dicotomia natural/artificial. O corpo morto é fragmentado, purificado de odores, de sua temporalidade orgânica, de sua natural tendência à putrefação. Mas também de qualqer narrativa, história ou ancoragem política-social. Ressecado desencarnado e digitalizado, esse corpo serve como suporte didático para a vulgarização científica e para a incitação a um "cuidado de si" norteado por hábitos saudáveis. Eis uma das faces do que podemos chamar de moral somática.
É difícil atribuir o fascínio exercido pelo cérebro a fatores isolados. Creio ter deixado algumas pistas a serem aprofundadas. Certamente imagens do cérebro irão nos acompanhar com seu fascínio em tons néon, ao longo deste século.
Fonte: Jornal O Globo - Caderno Prosa e Verso p. 1 e 2 (10/12/11)

domingo, 8 de janeiro de 2012


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Leituras da mente: neurociência avança no estudo da consciência e se aproxima de questões filosóficas discutidas por Aristóteles, Dante e Shakespeare


Guilherme Freitas


Enquanto explica a um leigo as principais teses de seu novo livro, "E o cérebro criou o homem" (Companhia das Lettras, tradução de Laura Teixeira Motta), o neurocientista português Antônio Damásio recorre alternadamente a estudos de ponta em suas área e à obra de alguns dos principais filósofos ocidentais, como Descartes e Spinoza. Mais que uma estratégia de popularização da ciência, a postura de Damásio pode ser entendida como uma tentativa de conectar os avanços nas pesquisas sobre consciência, memória e percepção a um tipo de reflexão sobre a natureza humana que costuma ser mais associado à filosofia, à psicologia e às artes.


Essa postura já estava presente no livro que tornou Damásio conhecido fora dos círculos acadêmicos, "O erro de Descartes", de 1994, no qual defendia que a neurociência fornecem argumentos que ultrapassam o dualismo entre corpo e mente proposto pelo filósofo. O livro novo incrementa a tese com descobertas recentes que indicam que o córtex, região mais complexa do cérebro, não é a única "base" da consciência como se costuma crer - ela estaria ligada  também ao tronco cerebral, responsável por funções corporais mais primitivas, como o ritmo cardíaco e a respiração. Essa concepção da consciência pode ser estendida à natureza como um todo, propõe Damásio: do nível humano ao de seres rudimentares que não têm memória nem autoconhecimento, mas têm noção do que passa à sua volta.


Em entrevista ao GLOBO, Damásio relaciona essa idéia à obra de outro filósofo que ja abordou  em livro ("Em busca de Spinoza" de 2003), cuja visão de consciência recusa o dualismo de Descartes. E justifica a mescla de pensamento científico e filosófico:


- A neurociência está empenha em questões com as quais artistas e filósofos lidam há séculos. Aristóteles, Dante, Shakespeare e Spinoza pensaram nos problemas mais profundos da humanidade, e nós também - diz Damásio, por telefone, de seu escritório na University of Southern California, onde dá aula de neurociência e dirige o Instituto Cérebro e Criatividade.


A presença da neurociência na seara das humanidades e da cultura popular é analisa por Maria Cristina Franco Ferraz professora da UFF e autora de Homo deletabilis: corpo, percepção, esquecimento: do século XIX ao século XXI" (Garamond). Em artigo publicado nesta edição, ela argumenta que o avanço da neurociência impulsiona uma cultura somática" que promove um deslocamento da relevânca da psicologia para uma ênfase crescente à biologia, sobretudo nos genes e no cérebro.


Entrevista: Antônio Damásio
'Lidamos com os os grandes dramas humanos - Neurocientista português fala sobre relação de pesquisas da área com a filosofia e critica  ênfase em medicamentos'.


Em " E o cérebro criou o homem, você diz que nosso entendimento da consciência se beneficia de um "legado conceitual" da filosofia e da psicologia e de "legado neural" da biologia e neurociência. até que ponto esses campos do conhecimento podem ser complementares?
Antônio Damásio: Acredito que esses campos são complementares, mas há imensas barreiras entre eles. Tenho tentado ajudar a promover esse diálogo. Quando comecei a estudar questões relacionadas à emoção, ao sentimento e à tomada de decisões, ficou clara para mim a ligação entre neurociência e os campos do conhecimento que sempre se dedicaram ao que há de mais básico na vida, os grandes dramas humanos de decidir o que é bom e o que é mau, buscar a felicidade, rejeitar a dor e a tristeza. Como sou neurologista por formação, estou interessado em saber como o cérebro se comporta nessas situações e também quero contribuir para o tratamento das doenças como o Alzheimer e a depressão. Mas o que me fascina é que a neurociência está empenhada em resolver questões com as quais artistas e filósofos lidam há séculos, Aristóteles, Dante, Shakespeare e Spinoza pensaram nos problemas mais profundos da humanidade e nós também.


Mas onde estes campos podem entrar em atrito?
Sobretudo no que diz respeito aos métodos. Da perspectiva de artistas e filósofos, a objetividade científica pode parecer redutora. Mas no fundo não há tanta incompatibilidade. No Instituto Cérebro e Criatividade, que fundamos na Califórnia, temos visto que artistas e pensadores gostam de se aproximar dos cientistas - se não forem maltratados, claro (risos). Em nossos estudos sobre como o cérebro lida com a melodia e as estruturas musicais, por exemplo, temos a colaboração de muitos músicos, como Yo Yo Ma. Tenho esperança que essa barreira entre ciências e humanidades se resolva no futuro.


A filosofia está muito presente em seu trabalho. No novo livro, proposições sobre a consciência estão ancoradas na obra de William James. E outros livros seus remetem a Descartes e Spinoza. Como as idéias de filósofos sobre a mente humana contribuem para o desenvolvimento da neurociência?
Ao se aproximar dessas grandes questões de que falamos, a filosofia formulou inúmeras teorias. Nas últimas três décadas, com os avanços das neurociências, podemos verificar cientificamente alguma delas. Muitos pensadores da virada do século XIX para o XX, como William James e, em certo sentido Freud, podem ser apontados como precurssores da neurociência atual. A diferença é que hoje podemos testar hipóteses que há cem anos não eram verificáveis.


Com isso, pode haver o caminho inverso, com a neurociência influenciando a filosofia?
Sim vejo jovens filósofos extremamente alerta para o que se passa no campo da neurociência. As gerações mais antigas muitas vezes pensam que a neurociência tenta roubar da filosofia seus temas tradicionais. Mas entre os mais jovens há uma grande abertura para as contribuições da neurociência, o que é vantajoso para ambos.


Um dos pontos centrais do novo livro, é o estudo de que o cérebro constrói a mente e como torna essa mente consciente, uma questão central também na história da filosofia. Em que estágio de compreensão desses fenômenos a neurociência se encontra hoje?
Hoje é possível dizer com mais convicção que aquilo que chamamos de mente é o resultado de mapas neurais que construímos, alguns muito ligados ao corpo, outros mais ligados ao meio que nos circunda. Quanto ao modo exato como a consciência é construída, obtivemos uma série de progressos, mas ainda há questões em aberto. No livro, descrevo como pesquisas recentes mostram que ao contrário do que muitos acreditam, o córtex cerebral não é a única "base" da consciência. O nível mais alto tem muito a ver com o córtex, mas níveis mais simples tem a ver sobretudo com o tronco cerebral. E a identificação da base neural exata dos sentimentos, o problema neurocientífico que mais interessa, ainda está em desenvolvimento. Acredito que nos próximos cinco ou dez anos teremos resultados notáveis sobre como o cérebro constrói o eu.


Com os avanços recentes, a neurociência corre o risco de cair no trinfalismo?
Se não chegarmos a entender tudo também não será um desastre, porque há tanta complexidade e beleza no ser humano que não faz mal se ficar algum mistério, não é? (risos). O importante é que o progresso do conhecimento não cause uma perda de humanidade. Fico desapontado quando dizem que a neurociência reduz tudo ao cérebro e a circuitos nervosos. Reduzir a natureza humana a neurotransmissores, dopamina e serotonina é muito triste.


Mas esse reducionismo é comum hoje, não? Como você avalia a presença da cultura popular atual?
O sucesso da neurociência faz com que muitos caiam em explicações simplistas. Tudo que tem relação com o cérebro é complexo, e por isso os neurocientistas devem ser explicar mais, sempre. O reducionismo traz muitos riscos. Há quem acredite que podemos resolver a dor e a tristeza só tomando pílulas, o que é ridículo. Medicamentos não são a única solução. Estamos imersos em afetos, relações sociais, a justiça, a política, a economia... Não se pode isolar o cérebro disso tudo. Não é vantajoso se neurologizar todos os problemas que temos.


FONTE: Jornal O GLOBO - Caderno Prosa e Verso - 10/12/2011

sábado, 7 de janeiro de 2012

O Anel dos Nibelungos: um olhar





No primeiro domingo do ano, assisti na TV aberta um filme chamado O Anel dos Nibelungos. De modo geral gosto de filmes medievais que flertam com o "fantástico", como as Crônicas de Nárnia, O Senhor dos Anéis entre outros. No caso do filme destacado, a história girava em torno de um jovem nobre, mas por causa de uma invasão ao seu castelo, seu pai morreu e ele se perdeu da sua família, sendo criado por um hábil ferreiro que lhe ensinou o seu ofício e omitiu a verdade de sua origem. Este jovem, tornou-se um grande guerreiro capaz de feitos extraordinários.

Não vou contar o filme, claro! Pude entender que se tratava da busca do homem na direção de saber quem ele de fato é, fala de coragem em empreender esta busca ao mesmo tempo que também se refere à vulnerabilidade que sempre temos que encarar no nosso caminho e que não é possível ter tudo tampouco, saber tudo, o que se agrava ainda mais quando o homem se perde das suas referências, de quem ele é.

E isto me trouxe para os desafios do homem de hoje. Todos somos capazes de criar, desbravar ambientes hostis, mas também há uma coisa que de algum modo sempre nos mostra que nunca poderemos tudo e olhar para essa parte  vulnerável de nós pode não ser uma experiência fácil. Por mais que o homem pense que controlou totalmente a natureza, por exemplo, vem um tzunami e deixa a humanidade perplexa, por mais que estejamos no auge da nossa potência de realização e colhendo frutos fartos daquilo que semeamos, vem uma doença, um revés qualquer, vide o que tem acontecido com a Unão Européia e os EUA, ilhas de prosperidade e excelência, perplexas frente a uma realidade que há tempos  não viviam em sua história.

Fomos capazes de avanços enormes, mas ainda sabemos muito pouco quem somos, o que na verdade é para cada um de nós importante. Nos seres humanos tanto no mundo quanto no íntimo de nós mesmos vivemos momentos de perplexidade. Cabe a cada um encontrar os seus significados para caminhar em meio a tantos paradoxos. Nós mesmos e o mundo somos uma coisa só. Se esta é a vida, viver.

domingo, 1 de janeiro de 2012







BORBOLETAS

Quando depositamos muita confiança ou expectativas em uma pessoa, o risco de se decepcionar é grande.

As pessoas não estão neste mundo para satisfazer as nossas expectativas, assim como não estamos aqui, para satisfazer as dela.

Temos que nos bastar... nos bastar sempre e quando procuramos estar com alguém, temos que nos conscientizar de que estamos juntos porque gostamos, porque queremos e nos sentimos bem, nunca por precisar de alguém.

As pessoas não se precisam, elas se completam... não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida.

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com a outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem ou a mulher de sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você, e principalmente a gostar de quem gosta de você. 

O segredo é não cuidar das borboletas e sim cuidar do jardim para que elas venham até você. 

No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!

Mário Quintana
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