domingo, 30 de outubro de 2011

AUTO PERDÃO


 

Falar do perdão vem sempre junto a idéia da necessidade de perdoar o outro como o dito alívio geralmente produzido muito mais naquele que perdoa do que na pessoa perdoada, do quanto perdoar é importante para o indivíduo prosseguir na sua caminhada  sem o peso que a mágoa, ressentimento e afins costumam produzir naquele que deseja a reparação de um prejuízo causado, cuja vida permanece girando em torno desta situação que produziu o conflito. Estudos recentes relacionam as mágoas, ressentimentos e afins como sentimentos capazes de provocar diversos distúrbios, entre os quais, a depressão. As religiões falam da virtude do perdão como uma das condições essenciais para alcançarmos a Misericórdia para nós mesmos através do ato de perdoar o outro.

A necessidade do auto perdão é muito pouco falada. O auto perdão é a aceitação das nossas difuldades, dos erros que cometemos, da nossa imaturidade para lidar com certas situações na vida. Nos cobramos tanto e quando não alcançamos os objetivos programados, somos os primeiros a nos criticar, nos culpar severamente por questões que numa análise mais fria, poderiam apenas ser por nós vistas como um aprendizado, um sinal de que o caminho escolhido não foi o correto e que apenas nos cabe corrigir a rota escolhida. Exigimos de nós uma perfeição querendo controlar tudo e na verdade, a vida tem um ritmo próprio e nada dominamos. Somos seres únicos, embora o mundo creia numa (impossível) padronização, o que equivocadamente faz nos compararmos com as outras pessoas.

Perdoar a nós mesmos é um exercício de sempre e é desse modo que germina a capacidade de perdoar o outro como consequência. Cada pessoa é o que é e nada podemos fazer com relação a isso, a não ser seguir a nossa vida, buscando deixar se expressar através de nós a liberdade de sermos nós mesmos, com nossas qualidades e defeitos, fazendo o melhor que nos cabe procurando ouvir o que a Vida diz a cada um de nós, sim, porque ela sempre está nos comunicando alguma coisa. Era o que Jesus falava como "olhos de ver, ouvidos de ouvir".

sábado, 29 de outubro de 2011

Do plural ao singular


 

Entrevista José Antônio Ramalho
De olho no crescimento das redes sociais, as empresas passaram a bolar estratégias cada vez mais criativas para conquistar os usuários do Twitter e Facebook. Essas ferramentas estão mudando o discurso de marketing e o relacionamento entre mercado e público consumidor, analisa o escritor e consultor José Antônio Ramalho, autor de Mídias sociais na prática", publicado pela Campus/Elsevier.

O GLOBO: O que mudou no comportamento das empresas nas redes sociais?
JOSÉ A. RAMALHO: No início, elas se cadastraram como mais um membro das redes sociais. Mas depois resolveram mudar a abordagem. Deixaram de se comunicar como "nós" para estabelecer uma relação com o consumidor através da mesma pessoa. Algumas chegaram a criar personagens para se relacionar com os usuários.

* Pode citar um exemplo?
RAMALHO: A Audi foi uma das primeiras a criar um personagem para falar em nome dela. Quem deu vida a esse avatar foi um jornalista. Embora pessoas soubessem que era uma brincadeira, a relação ficou mais próxima, sem que fosse considerado invasão de prividacidade.

*Um forte investimento em criatividade...
RAMALHO: Sem dúvida. As empresas tiveram que reinventar o marketing. A comunicação deixou de se plural e passou a ser singular. Precisou ser criado o cargo de analista, para estudar o comportamento dos consumidores através das redes. A relação ficou mais próxima, e o público passou a se sentir mais envolvido nas campanhas.

*E a criatividade do público foi estimulada?
RAMALHO: Sim, é claro. Podemos citar a campanha da Nextel que foi feita para as mídias sociais, que pedia aos usuários para que eles mostrassem seu talento ao enviar vídeos cantando músicas do Paralamas do Sucesso. Ou outra que os internautas eram convidados a criarem um roteiro de filme. Essas ações acabam criando uma relação com a empresa.
Fonte: Jornal o Globo/ -  Boa Chance (CLick Léa Cristina e  Ystatille Freitas 28/08)

domingo, 23 de outubro de 2011

A EDUCAÇÃO E SEUS ATUAIS DESAFIOS




Pelo que foi observado em trabalhos realizados com educadores, parece haver uma incompatibilidade de idéias entre os teóricos, legisladores e os professores que vivem a rotina na sala de aula. Em geral os professores dizem não serem ouvidos quando alguma modificação é feita pelos legisladores.
A impressão que dá é a existência de um abismo entre teoria e a prática de uma educação que no cotidiano segundo os educadores é repleta de percalços que vão além da tarefa de ensinar.

Vivemos num país que ainda não conseguiu efetivar projetos capazes de produzir  uma qualidade de educação que consiga corresponder ao crescimento da importância do Brasil no cenário da economia mundial.

Que tipo de educação precisamos numa nação de dimensões continentais como a nossa e de características tão peculiares, sendo a mais marcante a diversidade cultural, aliado às diferenças individuais que cada aluno traz das suas vivências anteriores à presença na escola, somando-se a um mundo com avanços tecnológicos que trazem novas formas de lidar com o conhecimento? Analisar a educação no Brasil faz crer ser necessário observar , ouvir todas as partes envolvidas e não apenas importar modelos bem sucedidos.

Não é a educação sozinha, mas um conjunto de fatores técnicos da área e decisões políticas que  considerem a educação como algo efetivamente  interessante, a ponto de mobilizar ações, capazes de mudar de fato o que não tem sido positivo, como atestam os baixos índices nas recentes estatísticas, assim como o analfabetismos funcional, a participação da família, a inclusão, a forma de trabalhar o conteúdo, a formação e valorização dos professores e porque não dizer, a presença do psicólogo nas escolas como um elemento capaz de somar ao processo educativo.

A educação ainda está distante do que é importante para que este País possa crescer ainda mais em bases sólidas. Num debate no último dia 7 feito pela ONG Junior Achievement e o O Globo, que teve a presença da ex-Secretária Municipal de Educação e hoje professora da Uerj, Regina de Assis; com a gerente geral do Canal Futura, Lúciana Araújo e Rosana Mendes da equipe de gestores da Secretaria Municipal de Educação. As três em suas vivências observaram que a escola não acompanhou as mudanças no mundo a ponto de se tornar interessante para os alunos. Sendo assim pra que se manter na escola? A professora Regina de Assis disse que nossa escola ainda é como na Idade Média, pois os avanços tecnológicos trazem ao conhecimento novas configurações que a escola ainda não foi capaz de acompanhar e isso causa desinteresse no aluno. É preciso tornar a educação prazerosa  passando pela formação dos professores que precisa contemplar esta nova realidade.

O jovem recebe informações das mais diversas fontes e a escola precisa aprender a lidar com isso. Esta mudança deve partir do professor. A universidade ainda não dá atenção à educação básica, pois não considera todo o processo de aquisição de conhecimento ao longo da vida do estudante de modo integrado  fomentando no educador este olhar.

A gerente do Canal Futura lançou no dia 17 deste mês o documentário "Destino Educação" para investigar o que fazem os países no topo do ranking de educação no mundo como Canadá, Finlândia, China, Chile e  para comparar e ver o que pode ser utilizado destas experiências no Brasil.  Estes países foram visitados pela equipe de TV cujo resultado está indo ao ar todos os dias 21h e está disponível para professores e instituições de ensino no site Futura Tech: futuratec.org.br.

Rosana Mendes  admitiu que há um abismo entre o setor público e privado:
"-Estamos tentando reduzir este abismo, e lançamos no ano passado um programa de aceleração do aprendizado para corrigir a defasagem aluno/série, com uma metodologia específica. O problema ainda é grande e há muito o que melhorar. Defendo uma educação pública de qualidade e inclusiva" ." (O Globo- Razão Social, 18/10)

Para Regina de Assis, inclusão é fundamental para construir uma escola eficaz:
"- Tem aluno que tem pai alccólatra, mãe prostituta, que é filho de casal homoafetivo, entre outras situações que expressam diversidade. A escola e o professor têm que saber lidar com isso. Têm de saber educar o indivíduo na coletividade. Não adianta alunos serem ótimos em português e matemática se eles não são incentivados a gostarem de si mesmos." (O Globo- Razão Social, 18/10)
Esta ONG que promoveu o debate, incentiva funcionários de empresas privadas a realizar trabalhos em escolas.

Fonte: Jornal O Globo - Revista Razão Social (18/10)

sábado, 22 de outubro de 2011

É depressão ou tristeza?

 


Miguel Chalub



"O homem não aceita mais ficar triste"

Uma das maiores autoridades brasileiras em depressão, o médico Miguel Chalub diz que, hoje, qualquer tristeza é tratada como doença psiquiátrica. E que se prefere recorrer aos remédios a encarar o sofrimento.



RECEITA


Chalub afirma que muitos médicos se rendem aos laboratórios farmacêuticos e Indicam antidepressivos sem necessidade.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que a depressão será a doença mais comum do mundo em 2030 – atualmente, 121 milhões de pessoas sofrem do problema. Para o psiquiatra mineiro Miguel Chalub, 70 anos, há um certo exagero nessas contas. Ele defende que tanto os pacientes quanto os médicos estão confundindo tristeza com depressão. "Não se pode mais ficar triste, entediado, porque isso é imediatamente transformado em depressão",disse em entrevista à ISTOÉ.



"Hoje, brigar com o marido, sair do emprego, qualquer motivo é válido para se dizer deprimido. Mas o sofrimento não significa depressão".


Professor das universidades Federal (UFRJ) e Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), ele afirma que os psiquiatras são os que menos receitam antidepressivos, porque estão mais preparados para reconhecer as diferenças entre a "tristeza normal e a patológica". Mas o despreparo dos demais especialistas não seria o único motivo do que o médico chama de "medicalização da tristeza". Muitos profissionais se deixam levar pelo lobby da indústria farmacêutica. "Os laboratórios pagam passagens, almoços, dão brindes. Você, sem perceber, começa a fazer esse jogo."



"Há a tendência de achar que o medicamento vai corrigir qualquer distorção humana. É a busca pela pílula da felicidade".


Istoé:

- Por que tantas previsões alarmantes sobre o aumento da depressão no mundo?

Miguel Chalub:

- Porque estão sendo computadas situações humanas de luto, de tristeza, de aborrecimento, de tédio. Não se pode mais ficar entediado, aborrecido, chateado, porque isso é imediatamente transformado em depressão. É a medicalização de uma condição humana, a tristeza. É transformar um sentimento normal, que todos nós devemos ter, dependendo das situações, numa entidade patológica.

Istoé:

- Por que isso aconteceu?

Miguel Chalub:

- A palavra depressão passou a ter dois sentidos. Tradicionalmente, designava um estado mental específico, quando a pessoa estava triste, mas com uma tristeza profunda, vivida no corpo. A própria postura mostrava isso. Ela não ficava ereta, como se tivesse um peso sobre as costas. E havia também os sintomas físicos. O aparelho digestivo não funcionava bem, a pele ficava mais espessa. Mas, nos últimos anos, a palavra depressão começou a ser usada para designar um estado humano normal, o da tristeza. Há situações em que, se não ficarmos tristes, é um problema – como quando se perde um ente querido. Mas o homem não aceita mais sentir coisas que são humanas, como a tristeza.

Istoé:

- A que se deve essa mudança?

Miguel Chalub:

- Primeiro, a uma busca pela felicidade. Qualquer coisa que possa atrapalhá-la tem que ser chamada de doença, porque, aí, justifica: "Eu não sou feliz porque estou doente, não porque fiz opções erradas." Dou uma desculpa a mim mesmo. Segundo, à tendência de achar que o remédio vai corrigir qualquer distorção humana. É a busca pela pílula da felicidade. Eu não preciso mais ser infeliz.

Istoé:

- O que diferencia a tristeza normal da patológica?

Miguel Chalub:

- A intensidade. A tristeza patológica é muito mais intensa. A normal é um estado de espírito. Além disso, a patológica é longa.

Istoé:

- Quanto tempo é normal ficar triste após a morte de um ente querido, por exemplo?

Miguel Chalub:

- Não dá para estabelecer um tempo. O importante é que a tristeza vai diminuindo. Se for assim, é normal. A pessoa tem que ir retomando sua vida. Os próprios mecanismos sociais ajudam nisso. Por que tem missa de sétimo dia? Para ajudar a pessoa a ir se desonerando daquilo.

Istoé:

- Quais são os sintomas físicos ligados à depressão?

Miguel Chalub:

- Aperto no peito, dificuldade de se movimentar, a pessoa só quer ficar deitada, dificuldade de cuidar de si próprio, da higiene corporal. Na tristeza normal, pode acontecer isso por um ou dois dias, mas, depois, passa. Na patológica, fica nas entranhas.

Istoé:

- Ainda há preconceito com quem tem depressão?

Miguel Chalub:

- Não. É o contrário. A vulgarização da depressão diminuiu o preconceito, mas criou outro problema, que é essa doença inexistente. Antes, a pessoa com depressão era vista como fraca. Hoje, as pessoas dizem que estão deprimidas com a maior naturalidade. Não se fica mais triste. Se brigar com o marido, se sair do emprego, qualquer motivo é válido para se dizer deprimido. Pode até ser que alguém fique realmente com depressão, mas, em geral, fica-se triste. O sofrimento não significa depressão. E não justifica o uso de medicamentos.

Istoé:

- Os médicos não deveriam entender este processo?

Miguel Chalub:

- Os médicos não estão isentos da ideologia vigente. O que acontece é: você vem ao meu consultório. Eu acho que você não está deprimido, que está só passando por uma situação difícil. Então, proponho que você faça um acompanhamento psicoterápico. Você não fica satisfeito e procura outro médico, que receita um antidepressivo. Ele é o moderno, eu sou o bobão. Para não ser o bobão, eu receito um antidepressivo logo. É uma coisa inconsciente.


Istoé:

- Inconsciente?

Miguel Chalub:

- Os médicos querem corresponder à demanda. Senão, o paciente sairá achando que não foi bem atendido. Receitando um antidepressivo, eles correspondem à demanda, porque a pessoa quer ser enquadrada como deprimida. Mas há a questão dos laboratórios. Eles bombardeiam os médicos.

Istoé:

- A ponto de influenciar o comportamento deles?

Miguel Chalub:

- Se for um médico com boa formação em psiquiatria, mesmo que não seja psiquiatra, ele saberá rejeitar isso, mas outros não conseguem. Eles se baseiam nos folhetos do laboratório. Não é por má-fé. Os laboratórios proporcionam muitas coisas. Pagam passagens, almoços, dão brindes. O médico, sem perceber, começa a fazer o jogo. Porque me pagaram uma passagem aérea ou me deram um laptop, acabo receitando o que eles estão querendo.

Istoé:

- O médico se vende?

Miguel Chalub:

- Sim. Por isso é que há uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibindo os laboratórios de dar brindes aos médicos
. Nenhum laboratório suborna médico, não que eu saiba, nem vai chegar aqui e dizer: "Se você receitar meu remédio, vou lhe dar uma mensalidade." Mas eles fazem esse tipo de coisa, que é subliminar. O médico acaba tão envolvido quanto se estivesse recebendo um suborno realmente.

Istoé:

- Esse lobby é capaz de fazer um médico receitar certo remédio?

Miguel Chalub:

- Aí é a demanda e a lei do menor esforço. Se o paciente chegar se queixando de insônia, por exemplo, o que o médico deveria fazer era ensiná-lo como dormir. Ou seja, aconselhar a tomar um banho morno, um copo de leite morno, por exemplo. Mas é mais fácil, tanto para o paciente quanto para o médico, receitar um remédio para dormir.

Istoé:

- Os demais especialistas também receitam remédios psiquiátricos, não?

Miguel Chalub:

- Quem mais receita antidepressivos não são os psiquiatras, são os demais especialistas. Os psiquiatras têm uma formação para perceber que primeiro é preciso ajudar a pessoa a entender o que está se passando com ela e depois, se for uma depressão mesmo, medicar. Agora, os outros, não querem ouvir. O paciente diz: "Estou triste." O médico responde: "Pois não", e receita o remédio. Brinco dizendo o seguinte: se você for a um clínico, relate só o problema clínico. Dor aqui, dor ali. Não fale que está chateado, senão vai sair com um antidepressivo. É algo que precisamos denunciar.

Istoé:

- Os psiquiatras deveriam ser os únicos autorizados a receitar esse tipo de medicamento?

Miguel Chalub:

- Não acho que seja motivo para isso. Os outros especialistas têm capacidade de receitar, desde que não entrem nessa falácia, nesse engodo.


Istoé:

- Mas os demais especialistas estão capacitados para receitar essas drogas?

Miguel Chalub:

- Em geral, não.

Istoé:

- É comum o paciente chegar ao consultório com um "diagnóstico" pronto?

Miguel Chalub:

- É muito comum. Uma vez chegou um paciente aqui que se apresentou assim: "João da Silva, bipolar". Isso é uma apresentação que se faça? Quase respondi: "Miguel Chalub, unipolar". É uma distorção muito séria.

Istoé:

- O acesso à informação, nesse sentido, tem um lado ruim?

Miguel Chalub:

- A internet é uma faca de dois gumes. É bom que a pessoa se informe. A época em que o médico era o senhor absoluto acabou. Mas a informação via Google ainda é precária. Muitas vezes, a depressão, por exemplo, é ansiedade. Mas as pessoas não querem conviver com a ansiedade, que é uma coisa desagradável, mas que também faz parte da nossa humanidade. Tenho uma paciente que disse: "Ando com um ansiolítico na bolsa. Saí de casa, me aborreci, coloco ele para dentro." Então é isso? Se alguém me fala algo desagradável, eu tomo um ansiolítico? Isso é uma verdadeira amortização das coisas.

Istoé:

- O que causa a depressão?

Miguel Chalub:

- Esse é um dos grandes mistérios da medicina. A gente não sabe por que as pessoas ficam deprimidas. O mecanismo é conhecido, está ligado a uma substância chamada serotonina, mas o que o desencadeia, não sabemos. Há teorias, ligadas à infância, a perdas muito precoces, verdadeiras ou até imaginárias – como a criança que fica aterrorizada achando que vai perder os pais. As raízes da depressão estão na infância. Os acontecimentos atuais não levam à depressão verdadeira, só muito raramente. Justamente o contrário do que se imagina. Mas mexer na infância é muito doloroso. Não tem remédio para isso. Precisa de terapia, de análise, mas as pessoas não querem fazer, não querem mexer nas feridas. Então é melhor colocar um esparadrapo, para não ficar doendo, e pronto. É a solução mais fácil.

Istoé:

- O antidepressivo é sempre necessário contra a depressão?

Miguel Chalub:

- Quando é depressão mesmo, tem que ter remédio.

Istoé:

- Há quem diga que hoje a moda é ter um psiquiatra, não um analista. O que sr. acha disso?

Miguel Chalub:

- As pessoas estão desamparadas. Desamparo é uma condição humana, mas temos que enfrentá-lo, assim como o fracasso, a solidão, o isolamento.
Não buscar psiquiatras e remédios. Em algum momento, isso pode ficar tão sério, tão agudo, que a pessoa pode precisar de uma ajuda, mas para que a ensinem a enfrentar a situação. Ensina-me a viver, como no filme. Não é me dar pílulas, para eu ficar amortecido.
Istoé:

- O que é felicidade para o sr.?

Miguel Chalub:

- A OMS tem uma definição de saúde muito curiosa: a saúde é um completo estado de bem-estar físico, mental e social. Essa é a definição de felicidade, não de saúde.
Felicidade, para mim, é estar bem consigo mesmo e com o outro. Estar bem consigo mesmo é também aceitar limitações, sofrimento, incompetências, fracassos. Ou seja, felicidade também é ficar triste de vez em quando.


Fonte: Revista Isto é

domingo, 16 de outubro de 2011


Este texto da Martha Medeiros tem cores fortes no trecho que fala da nossa covardia e preguiça diante de uma efetiva tomada de posição frente àquilo que optamos por esquecer (penúltimo parágrafo). Na minha opinião, nos definir como covardes ou preguiçosos nas situações que somos em algum momento incapazes de encarar com a lucidez e vigor de quem busca estar bem consigo mesmo e com o mundo, serve para ampliar a extensão de uma circunstância em nossas vidas que apenas poderiam ser definidas como experiências - atitudes de uma vida que ainda opta por ignorar a possibilidade de se movimentar de outros modos no mundo em função de uma visão perceptiva restrita mas que pode aprender a se ampliar. Por isso que admitir o "incômodo", usando as palavras da autora, não é "fricote", mas importante elemento de libertação do indivíduo que também está no mundo.
'Tempos de amnésia obrigatória'
" Esquecemos de quem somos. Dos nossos ideais, das nossas vontades, dos nossos sonhos, das nossas crenças, tudo em nome de uma adaptação ao meio"
Por Martha Medeiros
Com diferença de poucos dias, uma amiga carioca e um leitor gaúcho me enviaram vídeos protagonizados pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano. Em um ele dá uma entrevista e, no outro, lê os próprios textos. Ambos os programas estão acessíveis pelo YouTube. Respeito as coincidências: como é que eu ainda não havia me dedicado a esse grande pensador humanista?
Num dos vídeos, Galeano aparece lendo seu texto "El derecho al delírio", em que descreve como seria um mundo ideal, e aproveita para homenagear aqueles que insistem em não esquecer a própria história (a exemplo das mães da Plaza de Mayo) nesses tempos de amnésia obrigatória.
A partir daí não ouvi mais nada, pois, considerei marcante essa expressão: "Tempos de amnésia obrigatória". O assunto merecia um tratado. Amnésia. É o que explica tanta neurose e tanta infelicidade. A gente procura esquecer para poder ir adiante, mas que espécie de caminho trilhamos quando não enfrentamos a verdade?
Esquecer é uma estratégia de sobrevivência. Somos todos uns esquecidos crônicos. Para começar, esquecemos de alguns descuidos que sofremos na infância, pois fomos educados para considerar pai e mãe infalíveis. Dessa forma, nossas dores internas acabam ganhando o apelido de fricotes, só que esses fricotes viram traumas, e esses traumas minam nossa confiança na vida e sustentam os consultórios psiquiátricos, já que esquecer é uma forma de impedir a compreensão absoluta de nós mesmos e alguém precisa nos ajudar a lembrar para nos libertarmos.
Esquecemos os desaforos que tivemos que engolir durante um casamento ou namoro, tudo porque nos ensinaram que o amor deve ser forte o suficiente para aguentar os revezes da convivência, e também por medo da solidão que tem péssimo cartaz. então para nos enquadrarmos e nos sentirmos amados e estóicos, esquecemos as mentiras, as traições, os maus tratos, as indiferenças e mantemos algo que ainda parece uma relação, mas que deixou de ser no momento em que enfiamos a cabeça dentro do buraco.
Esquecemos em quem votamos, céticos de quem em política nada muda, e, em vez de investirmos nossa energia em manifestações de repúdio à corrupção, deixamos para lá e seguimos em frente conformados com a roubalheira, desmemoriados sobre nossos direitos.
Esquecemos principalmente de quem somos. Dos nossos ideais, das nossas vontades, dos nossos sonhos, das nossas crenças, tudo em prol de uma adaptação ao meio, de uma preguiça em desfazer o combinado e buscar uma saída alternativa, de uma covardia que gruda na alma e congela os movimentos. Esquecer de nós mesmos é assinar um contrato com a resignação.
Obrigada, Galeano, por nos lembrar que a amnésia é uma opção, não é obrigatória.
Fonte: Revista O Globo (2/10)
 

sábado, 15 de outubro de 2011

Um exercício: em quem ou no que confiar?




Esta música do Djavan em parceria com Gabriel o Pensador chama-se  A Carta e faz parte do CD Bicho Solto XVIII (1998). Foi uma música desconhecida de um CD que já esteve presente num de meus antigos posts, mas pela força da canção, resolvi trazê-la novamente com um novo olhar, pois a mesma me tocou de um modo diferente e percebi que ela pode servir de base para pensar sobre este delicado caminho do meio entre a preocupação excessiva em ser perfeito e a ação que busca estar presente, preparado no que faz, mas com a leveza de fazer o melhor apenas sem se preocupar tanto com o resultado. Foi uma música desconhecida de um CD que teve o sucesso "eu te devoro". Adoro Djavan, tenho o CD e vê- lo cantando rap, se permitindo a usar uma forma diferente de cantar que estava habituado e juntando-se ao jovem Gabriel o Pensador com esta letra incrível, foi lindo.Esta canção continua evocando para mim questões bem atuais.

É visível o quanto o mundo avançou trazendo mais conhecimento, conforto para nossas vidas. Usufruimos da técnica e ao mesmo tempo  temos a idéia de que esta mesma técnica vai dar conta daquilo que somos de mais singular - o mundo avançou para fora, mas continuamos perplexos por dentro, assustados com o que surge em nós e fora de nós, o que diverge dessa praticidade e promessa de felicidade que toda essa modernidade, que é positiva nos promete.

Técnica é uma palavra que vem da grego téchné. Na definição grega, ela pode representar tanto a criação de artefatos como qualquer outra expressão criativa humana porque se relaciona ao método de realização de objetivos, ou seja na perpectiva originária grega,  téchné nem sempre a natureza precisa ser vista todo tempo todo tempo como um recurso a ser explorado, controlado.

Quando você vai fazer alguma coisa, costuma como diz a canção "confiar no seu critério" ou no que as pessoas dizem que é o melhor para você? Confiar naquilo que sentimos de mais verdadeiro, no nosso critério de julgamento das coisas, pode nos levar a acertos e erros, mas é daí? O acerto ou o erro é seu ou do outro? Quem deve estabelecer suas metas, você ou o outro?  Existe dentro de nós e no mundo que nos rodeia uma infinidade de possibilidades que apenas esperam a nossa exploração.

Ir percebendo que o tal do rigor que colocamos, da perfeição que perseguimos podem acabar sendo "armaduras" capazes de deixar o nosso caminhar mais arrastado. A gente pensa que pode controlar tudo. Dá pra sentir que tem uma coisa que se move à nossa revelia em tudo pois nem o nosso corpo controlamos...

Ana Maria Feijoo num capítulo do livro Psicologia Fenomenológico Existencial, faz um interessante paralelo entre o potencial humano e o ser sempre aberto a possibilidades no ato de existir, que é  um dos eixos principais desta abordagem que dá título ao livro, dizendo que acreditar no potencial humano é característico do mundo técnico em que a natureza é sempre tomada como algo a ser utilizado, controlado. Deste modo, a essência do homem acaba em certos momentos se confundindo com a essência da técnica.O filósofo Martin Heidegger em sua obra Ser e Tempo estudando sobre o ser do homem que se perdeu na modernidade, diz que não se trata de abandonar os recursos tecnológicos, mas refletir sobre seus efeitos e dizer "sim ou não" à utilização destes recursos.

Bibliografia
Angerami- Camon (Org.) - Psicologia Fenomenológica Existencial, São Paulo editora Thomson 2003
Heidegger Martin - O Ser e Tempo (3 volumes). Petrópolis Editora Vozes 1990

domingo, 9 de outubro de 2011


14a Conferência Nacional de Saúde

Brasília, DF - 30 de novembro a 04 de dezembro de 2011

SAÚDE COMO SEGURIDADE SOCIAL É DESAFIO DO SUS

Melhorar o acolhimento dos usuários e renovar estratégias de participação e controle público também estão na pauta de 14 Conferência de Saúde. Um cidadão idoso que recebe o Benefício de Prestação Continuada e gasta a maior parte do salário mínimo para comer melhor e para comprar remédios, sente, em sua vida, a falta de integração entre políticas públicas de assistência e seguridade social. A informação sobre o uso do benefício, proveniente do estudo da Universidade Federal do Espírito Santo, ajuda a entender porque as políticas públicas de saúde, previdência e assistência que juntas formam a seguridade social, precisariam estar articuladas, conforme aponta Sônia Fleury, da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro. "As pessoas usam o benefício para comprar remédios que deveriam ser dados a elas se as ações fossem integradas. Se é para fortalecer as políticas públicas, elas deveriam ser integradas", avalia.
O assunto é pauta da 14 Conferência Nacional de Saúde, cujo tema central é Sistema Único de Saúde (SUS) na Seguridade Social - Política Pública, Patrimônio do Povo Brasileiro. As etapas municipais ocorrem até julho e o evento nacional está marcado para dezembro de 2011.
Por que chamar atenção para este tema? Segundo Fleury, o direito humano à seguridade social entrou na Constituição Federal (CF) de 1998 sem estar enraizado nos movimentos sociais, que atuaram separadamente por saúde, previdência e assistência social: "Apenas há dois anos construiu-se movimento em defesa da seguridade pelo fato de o governo ter ameaçado acabar com contribuições sociais via reforma tributária, o que faria que a seguridade social como um todo ficasse descoberta", aponta Fleury. A reação foi proposta de destinar a recursos que a Consituição de 88 "carimbou" para atender à Previdência Social, ao SUS, à Assistência Social, ao Seguro Desemprego, entre outros, para objetivos financeiros, como o de zerar o pagamento dos juros da dívida interna (detalhes em www.direitossociais.org.br) movimentos questionaram também a Desvinculação das Receitas da União (DRU), que já permite o uso de 20% dos recursos das áreas sociais para pagar os gastos do superávit primário da União.
Para Alcides Miranda, diretor do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, a presença da seguridade social na pauta da Conferência é reconhecimento da lacuna importante para a garantia do princípio da integralidade do SUS. "Essa lacuna tem alto custo, porque leva a um confinamento de políticas de saúde e ao afastamento da idéia de que para produzir saúde é necessário ter políticas de promoção e proteção intersetoriais", avalia.
A questão da integralidade está presente também no debate sobre a prevalência do modelo biomédico na política de saúde brasileira. Para Miranda, este modelo, que atua a partir do evento doença, do sofrimento, para assitir ou reabilitar, é importante, mas a política de saúde não pode se restringir a ele e deve e deve estar articulada com políticas de vigilância sanitária, ambiental, epidemiológicas, de saúde do trabalhador, entre outras. "Trata-se de um conjunto de políticas que tem a prerrogativa de identificar condições de risco, de equidade, e de garantir proteção para as populações e os indivíduos. Deve atuar muito antes da doença e sob a perspectiva mais completa dos sujeitos", avalia, lembrando que desigualdades sociais estão presentes no país e que existem indivíduos mais vulneráveis.
"Não desconsideramos a importância de investimento na área biomédica, mas questionamos sua hegemonia. Saúde não é mais o oposto da doença. A própria definição da OMS remete a outros âmbitos de saúde: bem estar físico, psicológico, social", aponta Benedito Medrado, presidente da Associação Brasileira de Psicologia Social (Abrapso). Ele ressalta a necessidade de envolvimento da população na definição de estratégias de saúde adequadas à sua realidade.
Para Medrado, as Conferências de Saúde são importantes para construir idéias sólidas sobre esses desafios. "Preferimos negociar conflitos, tensões, para chegar à denominadores comuns, nesse sentido, a conferência é extremamente importante. Ela potencializa o debate e cria alternativas. A modificação das estruturas é posterior", afirma, referindo-se ao trabalho para tornar as propostas das conferências em políticas públicas de fato.
A Conferência, então, tem um papel de mobilizar e propor conteúdos que sejam tensionados para entrar na agenda dos governos e da sociedade. Para Medrado, a participação dos trabalhadores nas instâncias de controle social também precisa ser repensada, uma vez que as categorias - entre elas a de psicólogas e psicólogos - ganham importância na atenção à saúde. "O papel de cada profissão muda em função dos arranjos novos do processo saúde, e isso precisa ser discutido em razão do interesse público, colocando necessidade da carreira pública, equivalências.
Participação e controle social: renovação. O texto orientador do evento aponta para a necessidade de aperfeiçoar instrumentos e mecanismos de participação e de controle social das políticas públicas. Combinar democracia participativa, mecanismos de representação da sociedade perante o governo e o uso de nova tecnologia de comunicação e de redes sociais é desafio ressaltado por Alcides Miranda, do Centro Brasileiro de estudos da Saúde (Cebes). "Não diria reinventar, mas precisamos ser criativos, aumentar a participação, encontrar formas de representação que possam ser transparentes, colocadas na esfera pública, e possa discutir isso em razão da coisa pública, da res publica", afirma.
Sonia Fleury agrega, à idéia de qualificação da participação, a necessidade de acompanhamento de gastos e da qualidade dos serviços. "Há casos de conselhos estaduais aprovando orçamentos de saúde de estados que não cumprem as leis. Isso mostra incapacidade de exercer controle", lamenta. Entre as soluções, estariam a articulação dos mecanismos de controle dos tribunais e conta e, sobretudo, o estabelecimento de parâmetros mínimos de funcionamento e qualidade dos serviços. Havendo parâmetros, os conselhos têm mais referência para cobrar.
Gestão: formação de profissionais é central. O terceiro eixo da conferência refere-se à gestão do SUS e inclui temas como financiamento, relação entre público e privado, gestão do trabalho e educação e saúde. A psicóloga Lumena Furtado, secretária adjunta de saúde de São Bernardo do Campo, SP, destaca gestão do trabalho como grande desafio para a consolidação do SUS. Fixação dos profissionais em regiões de difícil acesso, no interior do país ou nas periferias, são questões a ser enfrentadas na conferência. Processos de formação, residências multiprofissionais, especializações e discussão com as universidades sobre os conteúdos para uma formação que de fato responda às necessidades do SUS são outra pauta candente, ao lado de uma agenda de formação permanente de profissionais. "isso nos coloca o desafio específico para as instituições formadoras da Psicologia: nossa formação atende as demandas do SUS?", questiona Furtado. "Quando tentamos garantir integralidade, princípio básico do SUS, nos colocamos o desafio de discutir não só propostas de assistência, mas proteção, promoção de saúde, conjunto de atividades intersetoriais que possam ajudar a tornar o espaço de vida das pessoas mais saudáveis", aponta ela.
Melhorar o acesso, mudar a imagem que a população tem do SUS. O eixo dos debates da 14a Conferência de Saúde é direto: acesso e acolhimento com qualidade são desafios para o SUS. Para a pesquisadora Sonia Fleury, é fundamental superar a idéia de que é natural que o serviço público seja ruim e a decorrente aceitação da condições precárias de atendimento. "A banalização da precariedade traz consigo a banalização, da injustiça social porque a precariedade leva a sofrimento, a horas de espera na madrugada", avalia. É necessário então, que o cidadão tenha segurança de que será atendido quando precisar e que o poder público se sinta responsabilizado pelo atendimento. " Os rituais de peregrinação talvez sejam a coisa sobre a qual precisamos lutar mais fortemente. Direito, na prática, corresponde a uma noção de responsabilidade e segurança. Sem isso não há humanismo", propõe. Todas as pessoas deveriam estar vinculadas a uma unidade - não importa o nome - que seja responsável pela saúde do cidadão e, se não puderem atendê-lo que o encaminhe para outro espaço. A segurança sobre o atendimento é, portanto, central", pondera. Outro desafio é minimizar o sofrimento e humilhação, qualificando profissionais de acolhimento e organizando processos. " Não tem sentido ficar tentando pegar senha quando tem toda uma capacidade hoje, de informática, que pode evitar isso", avalia Fleury.
SUS é para todos. A idéia de que o SUS é responsável apenas pela assistência à saúde prejudica o entendimento do sistema como algo público e necessário para todos os cidadãos. O documento de orientação da conferência lembra que todos usam o SUS, por meio da vigilância sanitária e epidemiológica, vacinações entre outros.
A população brasileira precisa saber disso para assumir o SUS como uma conquista a resistir à segmentação do mercado de saúde, colocada como alternativa pelos agentes privados, que buscam ficar com os atendimentos lucrativos e deixar os serviços custosos a cargo do Estado. "Precisamos demonstrar para a população brasileira que essa política pública é dela. Por mais que tenha problemas de financiamento, ela tem mostrado viabilidade", defende Sonia Fleury.
Fonte: Conselho Federal de Psicologia - Jornal do Federal (julho 2011)

sábado, 8 de outubro de 2011


"Remembering that you are going to die is the best way I know to avoid the trap of thinking you have something to lose. You are already naked. There is no reason not to follow your heart. Stay hungry. Stay foolish." -Steve Jobs 1955/2011.




domingo, 2 de outubro de 2011




Análise da Mídia
Regular a publicidade para proteger as crianças
A infância é uma fase peculiar de desenvolvimento na qual a criança precisa de cuidados especiais. De maneira geral, este foi o argumento utilizado por organizações da sociedade civil que atuam pelos direitos da infância e da adolescência durante seminário realizado na Câmara dos Deputados para discutir sobre o Projeto de Lei 5.921/2001.
De autoria do deputado Luis Carlos Hauly (PSDB/PR), o PL tem por finalidade restringir a publicidade para a venda de produtos infantis. O tema é polêmico, uma vez que, no Brasil, qualquer tentativa de regulamentação é confundida com censura. "Precisamos perder o medo de marco regulatório e controle social. Regular não é oprimir", destacou Roseli Goffman, representando o Conselho Federal de Psicologia (CFP) no seminário. A psicóloga ponderou que não há pretensões por parte da sociedade civil, de proibir a publicidade de produtos infantis, mas pretende-se que esse tipo de ação seja dirigida a quem efetivamente compra tais produtos, ou seja, os pais.
Embora a publicidade ocupe as diversas mídias, é na televisão que seu potencial preocupa, uma vez que quase 100% dos domicílios contêm, pelo menos, um aparelho de TV, que se torna um espaço informal de educação. De acordo com a representante de CFP, as crianças brasileiras assistem a cerca de 4h50 de programação nesse veículo de massa, registrando uma das médias mais altas do mundo. Entre as consequências desse hábito estão o consumismo na infância, a obesidade infantil, a erotização precose, o consumo antecipado de álcool e de tabaco, a violência e a diminuição das brincadeiras criativas.
Gustavo Amora, pesquisador da Rede Nacional Primeira Infância (RNPI), enfatizou que o brincar representa importante etapa para o desenvolvimento das atividades cognitivas da criança e é importante espaço de socialização. As relações e as percepções dessa fase se estendem por toda a vida de meninas e meninos. "O brincar está recebendo interferência do consumismo", relatou Gustavo.
Uma pesquisa realizada em 2010 pelo Instituto Alana, em parceria com o Datafolha, apontou que as crianças têm grande influência nas decisões de compra da família. Gabriela Vuolo, do Instituto Alana, afirmou que este mesmo estudo aponta que 76% dos pais se declararam fovoráveis à regulamentação dirigida ao público infantil. Para Gabriela, "os pais estão pedindo ajuda" para evitar consumismo na infância, uma vez que estudos indicam que a criança, até certa idade, não diferencia programação infantil de publicidade, o que prejudica no seu desenvolvimento de escolha.
O secretário executivo da Andi - Comunicação e Direitos, Veet Vivarta, complementou, enfatizando que o Brasil possui déficitis democráticos no que diz respeito à regulamentação de políticas de comunicação, sendo necessário separar jornalismo de entretenimento e publicidade. Nesse sentido, "é necessário fortalecer os instrumentos regulatórios", disse Viverta, ao fazer referência à primeira conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada em 2009 e que, entre vários assuntos, colocou em evidência a temática da publicidade infantil.
"Todo ordenamento jurídico está preocupado com a criança e o adolescente, com suas potencialidades. Com o Código de Defesa do Consumidor não é diferente. Existe reconhecimento da fragilidade dessa fase de desenvolvimento da pessoa", afirmou Celso Soares, do DPDC/MJ ao chamar a atenção para o fato de que todo cliente é vulnerável, em qualquer situação de consumo.
Regulamentação não é forma de censurar as agências de publicidade
Argumentos Contrários
Representantes do segmento da publicidade também estiveram presentes no seminário. De maneira geral, eles alegaram que a publicidade não deve ser restringida, cabendo à família a palavra final sobre a compra dos produtos. As mensagens não podem ser dirigidas às crianças, mas os produtos sim. Cabe aos pais resolverem comprar ou não", disse Gilberto Leifert, do Conselho Nacional de Autorregulação PUblicitária (Conar).
O representante da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) disse que as experiências de regulção em outros países não se aplicam ao Brasil devido às diferenças culturais e sociais. Na opinião dele, a restrição das propagandas dirigidas às crianças poderá interferir na programação infantil, pois muitos financiadores deste tipo de programa são os prórpios anunciantes.
Fonte: Rede Andi Brasil. Texto: Raphael Gomes

sábado, 1 de outubro de 2011

E o Brasil segue engatinhando

Por Helena Moura
* Não registrei a data desta publicação na fonte porque me desfiz do jornal sem anotar a  mesma e não encontrei na internet. Mesmo assim optei por registar esta entrevista pelas importantes reflexões que ela traz.

Os investimentos do governo em inovação crescem sistematicamente. Mas para Heloísa Moura, fundadora e parceira da Ghante Inovação, o Brasil nesse quesito ainda está "aquém das grandes economias e tem baixa taxa de conversão em benefícios para a sociedade", diz. Isso sem mencionar a qualidade do gasto, entre outros problemas estruturais.

O GLOBO: O que o governo tem feito para estimular a inovação?
HELOÍSA MOURA: Neste ano o governo ampliou os recursos da Finep como parte do plano Brasil Maior, chegando a 8 bilhões - 33% a mais do que no ano de 2010 e 75% superior em relação a 2009. entre 2000 e 2008, os gastos públicos em pesquisa e desenvolvimento tiveram alta de 170%. Mais ainda que o investimento em inovação tenha crescido significativamente, ele está aquém das demais grandes economias e tem baixa conversão em benefícios para a sociedade brasileira.

. Por exemplo?
HELOÍSA: O índice de inovação aplicado à indústria, por exemplo, avançou apenas sete pontos percentuais neste período, indo de 31,5% para 38,6%, enquanto que, historicamente, segundo o relatório da Associação Européia de Organizações de Pesquisa e Tecnologia, a média internacional de crescimento alcançado é da ordem de 10% a 15%.

. E o que falta ao empreendedor para adotar a inovação como processo?
HELOÍSA: É necessário investir na formação de inovadores, na criação de ecossistemas de apoio à inovação, e na estruturação do processo de Inovação nas empresas. Também rever o foco e a estrutura dos programas de fomento à inovação, assim como suas métricas. Por exemplo, não existem programas injetando recursos de investimento na fase de pré-inovação, financiando a pesquisa necessária para mapear áreas de oportunidade e gerar propostas de soluções  inovadoras. Esse é o grande entrave para micro e pequenos negócios, e até de médias empresas.

. Qual o perfil do empreendedor inovador?
HELOÍSA: Algumas das habilidades, conhecimentos e competências necessárias são: empatia, otimismo, capacidade de ação e adaptação, energia, autoconfiança, automotivação, resistência à frustração, criatividade e foco no ser humano. E, com o trabalho multidisciplinar, é possível compor equipes combinando todas as ferramentas necessárias para a prática de inovação.
Fonte: *Jornal O Globo - Caderno Boa Chance, coluna Click!
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