Melancolia - Artes plásticas, cinema, literatura e até a moda refletem a dor de existir

imagem: reproduções


Este texto contém informações de eventos que não estão ocorrendo mais no Rio de Janeiro. Trouxemos o mesmo pela forma abrangente de tratar o tema de fato tão presente na cultura, nas artes, nas ciências, na moda, ou seja, em nós.  E justamente por estar em nós que o assunto se manifesta no mundo nos mais diferentes aspectos atraindo a nossa atenção.  Como é um texto de múltiplas perspectivas, oferece ao leitor a chance de fazer a sua própria pesquisa e chegar às suas próprias conclusões.
Regina Bomfim


Por Bety Orsini

Há uma brisa melancólica flutuando no ar. No cinema, o filme "Melancolia" da Lars Von Trier, está previsto para chegar às telas brasileiras no início de agosto. Por sua vez, nas artes plásticas, o sentimento está presente na exposição "2892" de Daniel Senise, em cartaz na Casa França Brasil. No teatro, o  Grupo Balcão percorre o Brasil com "Tio Vânia", de Tchekhov, representante maior das existências melancólicas. Enquanto isso livros que tratam do tema, como "Saturno nos Trópicos", de Moacyr Scliar, e "O tempo e o Cão", de Maria Lúcia Kehl, conquistam leitores a cada dia. O autor gaúcho descreveu a tragetória da melancolia da passagem da Idade Média para o Renascimento.

Percebendo essa tristeza, a consultora Cristina Franco, defende que essa 'doença da alma' tem sido atacada na moda pelo excesso de cor:
- Esse conjunto quase eufórico de tons é uma reação á melancolia -  afirma Cristina acenando para a 'louca" mistura de cores da estilista alemã Jill Sander bem como para a exuberância da coleção Prada. - Interessante notar ainda, que estão acontecendo no mundo inteiro homenagens a Saint Laurent, que era uma pessoa extremamente melancólica e um mestre na combinação de cores.
O neurologista Marco Antônio Araújo Leite explica que a melancolia designa um subtipo de depressão, outrora chamada endógena.
- Ambas variam quanto à intensidade, ao período de manifestação clínica e à associação com outros distúrbios. Depressão é uma doença comum, qua acomete cerca de vinte por cento das pessoas, porém é mais frequente entre as mulheres com idade entre 20 e 40 anos.
.Sérgio Araújo (fonte imagem)
Lençóis de hospital e motel na exposição "2892", de Daniel Senise



DITADURA DA EUFORIA PERPÉTUA

O médico alerta que não se deve confundi-la com tristeza e explica que, nos últimos anos, os neurocientistas têm demonstrado áreas cerebrais correlacionadas á tristeza em voluntários saudáveis por meio de estudos com tomografia axial computadorizada, com emissão de pósitrons e ressonância nuclear magnética:
- Tristeza é uma condição humana, um estado de ânimo. Como dói a dor de um amor perdido! Quantas são as lágrimas que escorrem pelo rosto diante de uma frustração! Esse sentimento representa uma reação individual a estímulos  externos e é passageiro. É algo por nós expressado quando somos expostos á situações ruins. Todos passamos por momentos de tristeza em nossas vidas: meu time perdeu, minha namorada me largou, meu patrão não reconhece meu esforço... Em geral, o tempo ou incentivos motivacionais promovem melhora de condições como essas. Como diria Paulo Vanzolini: "reconhece a queda e não desanima; levanta sacode a poeira e dá a volta por cima."

A quantidade de pacientes melancólicos que buscam seu divã tem chamado a atenção do psicanalista Carlos Eduardo Leal. Ele pega carona em Freud para falar sobre o tema:
- É importante observar que vivemos sob a ditadura de uma euforia perpétua, um 'dever de felicidade'. Todos nós temos que estar com um sorriso nos lábios, mesmo que  seja falso. Parece que não há mais lugar para momentos de tristeza neste mundo. Associa-se esse estado de euforia à felicidade, ao passo que se correlaciona a tristeza à depressão - explica Leal ou à melancolia - Explica Leal.
- A melancolia traz o peso da sensação de fim de mundo. Ela é a dor de existir.

Recém eleito para a Academia Brasileira de Letras, Marco Lucchesi concorda com Leal. E abre parênteses para explicar que a melancolia o remente irremediavelmente ao poeta alemão Geork Trakl, autor de versos "Enfim sempre regressas, melancolia, ó mansidão da alma solitária".
- Não penso necessariamente no clássico luto e melancolia de Freud, mas me deparo com uma epidemia de euforia que parece marcar o fim do século XX. É proibido emocionar-se. Entristecer-se. É a patrulha química das lágrimas ou a patrulha da sociabilidade.

Uma tristeza contínua, ausência de amor-próprio, desinteresse pelo mundo, tendência ao suicídio: Viviane Mosé lembra que esses sintomas eram tidos como melancólicos e que o termo, muito usado por Freud, aos poucos foi sendo substituído por depressão, a ponto de melancolia e depressão terem virado sinônimo para alguns:
- Em minha opinião existe, sim, uma diferença: a melancolia sempre teve um charme, na medida que desde a Grécia esteve relacionada a gênios, aos filósofos, aos cientistas e aos artistas; já a depressão aparece mais como uma falta, não vem recheada de positividade, como ocorre na melancolia. O fato é que aqueles com pretensão intelectual ou artística acabam por se identificar com esse tipo sofredor. É chique em nossa cultura.

Mesmo reconhecendo que a melancolia se alimenta desse caos humano, social e ambiental, ela é otimista:
- Esta crise pode ser o prenúncio de grandes transformações, do surgimento de seres humanos corajosos e dispostos a superar o atual estado de coisas. Acredito na transformação. vejo melancolia, sim, mas também vejo ação e coragem no mundo de hoje.

Na literatura contemporânea, o crítico josé Castello enxerga uma tendência ao vazio e à impotência existencial:
- De saída penso na obra maravilhosa de João Gilberto Noll, toda la encenada por personagens solitários, extraviados, um tanto cegos. Já ouvi o Noll falar não em melancolia, porém em certo "autismo": o sujeito separado do mundo.

Castello cita ainda o "forte desamparo" nos livros de Cristovão Tezza, a "tristeza" na obra poética de Adélia Prado e a "descrença" nos livros de Raduan Nassar:
-Sem dúvida que existe uma espécie de desespero nos dois grandes livros de Raduan. Penso no forte sentimento de exílio em "Lavoura Arcaica" e, também, nos sentimentos de separação, de solidão e incompreensão.

Melancolia?
- não sei se usaria a palavra melancolia: desamparo, sim - observa Castello, lembrando que os médicos hoje relacionam quase qualquer sintoma à depressão, porém talvez evitem o nome mais correto ("embora mais incômodo, porque não tratável") de melancolia:
- Existem os antidepressivos, mas não existem os 'antimelancólicos'.

O crítico lembra que João Cabral de Melo Neto, derrotado pela melancolia da velhice, vivia "furioso" com os médicos, que sempre lhe prescreviam antidepressivos:
- Ele dizia que não era depressão o que sentia, nem era angústia e sim melancolia; uma espécie de buraco no peito.

O crítico de teatro Macksen Luiz observa que sempre reencenam obras de Tchekov, com seus personagens que vivem em busca de alguma coisa, a qual jamais conseguem alcançar. Agora mesmo, o grupo Balcão está percorrendo o Brasil com "Tio Vânia".
- Toda obra de Tchekov está voltada para uma atmosfera melancólica. Seus personagens quando imaginam que estão em luta por alguma coisa, no íntimo sabem que esta luta está perdida - analisa Macksen autor do blog macksenluiz.blogspot.com.

Macksen lembra que o autor russo é reencenado com frequência, sobretudo por diretores preocupados em renovar a linguagem teatral de alguma forma; diretores que focam a melancolia através de uma linguagem provocativa e inquieta:
- Eles não são melancólicos ao realizar esses espetáculos. Uma vez por ano, pelo menos, tenos uma montagem de Tchekov no Rio e em São Paulo. Enrique Diaz e Bia Lessa, que não são dieretores tradicionais, já montaram - diz Macksen.

LIBRIANOS SÃO OS MAIS ATINGIDOS

No entanto, a astrologia também tem lá suas explicações. A astróloga Mônica Horta afirma que os filhos de Libra estão sendo os mais atingidos por essa onda melancólica:
- Com Saturno cruzando o céu dos librianos, a melancolia fica à flor da pele, embora não seja necessariamente um aspecto ruim. Isso porque, exaltado no signo de Libra, Saturno tem a capa de uma lucidez extraordinária.

Para o escritor Carlos Heitor Cony, a "nostalgia é saudade do que vivi, a melancolia é saudade do que não vivi". O curador de arte Marcos Lontra entende bem o significado da frase. Ele lembra que o Brasil é tropical e exuberante, contudo a melancolia é um traço genético entre nós, os portugueses e os africanos saudosos:
- Até mesmo os jardineiros orientais subiam a encosta do Jardim Botânico, onde hoje existe o que chamamos de Vista Chinesa, e ficavam a olhar o mar, pensando na China ou na Indonésia, tanto faz, pois melancolia não tem pátria... Machado é melancólico, bem como Goeldi. A Bossa Nova, então... Passada a Utopia modernista, a arte hoje parece oscilar entre o cinismo exuberante e a melancolia sedutora, como é o caso da bela exposição da Daniel Senise aqui no Rio. Imperdível - analisa Lontra a respeito da exposição, cuja obra central é formada por setenta lençóis usados num hospital e num motel - Enfim melancolia é isso, reticência, algo que poderia ser escrito, mas não é... E La Nave Va...



Fonte: Jornal O Globo - Caderno Ela p.8 (18/06/2011)

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