JANEIRO BRANCO: MÊS DA SAÚDE MENTAL, SAÚDE MENTAL SEMPRE

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Falar de saúde mental é compreender que esta é, sem medo de ser audaciosa em minha posição, o território, o recurso natural, a tecnologia mais valiosa da existência que cabe ao ser humano explorar. Como ainda somos estrangeiros dentro de nós mesmos, apesar dos  importantes avanços que somos capazes de criar. 

As perspectivas de crescimento dos transtornos mentais e seus inegáveis danos à saúde e à produtividade por cada vez mais incapacitarem ao trabalho e ao desfrutar da vida, torna-se cada vez mais algo que não mais pode ser ignorado, daí a iniciativa de transformar o mês de Janeiro no mês da Saúde Mental -  JANEIRO BRANCO.

Em muitas ocasiões o PSICOLOGIA EM FOCO falou sobre o quanto se tornou insustentável manter a separação corpo e alma - O penso, logo existo de Descartes, somado a todos os pensadores que forjaram a estrutura e o funcionamento do Ocidente, tem se mostrado ineficaz ao longo dos anos para dar conta da comp…

Desobediência faz parte

Os mais novos transgridem mesmo: quando o processo de educação acontece há sempre resistência

Por Rosely Sayão

Mães e pais andam espantados e/ou perplexos com a desobediência dos filhos pequenos, maiores e até mesmo adolescentes. Que coisa não? Por que será que esses pirralhos não entendem que precisam acatar o que seu pais dizem?

Uma leitora conta que é uma mãe dedicada e consciente de que seu maior compromisso na vida hoje é o de educar bem a filha, que tem cinco anos. Diz inclusive que regularmente assiste a palestras e lê coisas de qualidade a respeito do assunto.

O problema, segundo ela, é que mesmo assim se defronta com as birras que a filha faz, com manhas na hora de colocar a roupa ou comer e com pequenos escândalos - Quando a garota quer ter ou fazer alguma coisa que a mãe entender que não deve dar ou permitir naquele momento.

Qual o meu erro? me pergunta essa responsável mãe. Certamente muitos outros pais passam pela mesma situação e se fazem a mesma pergunta.

Um pai agora, um tanto desconsolado e assustado, enfrenta a adolescência do filho. O jovem quer sair sem hora pra voltar e sem dar explicações. Além disso, o garoto sempre trangride as poucas regras que o pai tenta lhe impor.

Depois de dizer que sempre educou o filho de um modo democrático, esse pai confessa não saber o que fazer. "Será que vou ter de castigar meu filho , agora que ele cresceu?", pergunta.

Pelo menos ele não desistiu, como muitos pais de adolescentes têm feito...

Qual é a questão afinal? Por que os mais novos insistem na transgressão?

Será responsabilidade deste mundo tão transformado, a crise de valores, das escolas, das más companhias, das "famílias desestruturadas", como muita gente gosta de afirmar?

Ou será que as crianças nascem diferentes, mais ousadas e com "personalidade forte"? Ou ainda será  que os pais já não sabem mais agir com autoridade?

Não, caro leitor, questão é bem mais simples. Então de largada vamos lembrar de um rincípio básico: sempre que a educação acontece, há resistência no processo.

Pronto: é simples assim. A relação da mãe e do pai com os filhos é sempre tensa. Por que? Porque os pais precisam introduzir o filho na dinâmica familiar, na convivência com os outros, na vida que a cada dia apresenta um pouco mais de desafios e, portanto, compromissos e responsabilidades, entre outras coisas. Ora, isso significa impor a criança uma certa direção.

Comer determinados alimentos desta ou daquela maneira, tomar banho, vestir esta ou aquela roupa, ir para escola, não comer em determinados horários, prestar contas aos pais, respeitar as pessoas etc, etc. Por que a criança deveria acatar isso de bom grado se o que ela quer é bem diferente?

Ela quer ficar vendo televisão, jogando videogame ou futebol, dormindo pela manhã ou acordado de madrugada e se colocar no centro do mundo... Isso é o que ela quer. O jovem quer se grudar nos grupos, ser plenamente aceito por seu pares, quer diversão sem fim... A juventude é curta afinal.

Só isso já seria suficiente para nos fazer reconhecer que eles irão reclamar, resistir, usar todas as estratégias que têm à mão para demonstrar seu descontentamento. É só isso o que expressa a desobediência e a transgressão. Faz parte do jogo, não é verdade?

Mesmo eles tendo aprendido, eles vão insistir na transgressão. Não é assim no futebol, por exemplo? Por isso o jogo exige árbitros e penalidades para as faltas.

Então vamos relaxar: os mais novos sempre vão transgredir, desobedecer. É um direito deles.  É dever dos pais persistir com com o processo educativo em curso, reafirmar posições , fazer valer o ensinado. E ter paciência.

Até quando essa situação persiste? Até a maturidade dos filhos que deve chegar por volta dos 20 anos, se tivermos um pouco de sorte além do empenho investido.

Rosely Sayão - Psicóloga e autora do livro "Como Educar meu Filho?"

Fonte: Folha de São Paulo - Caderno  Equilíbrio p.8 (09/08).

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