Horas de Verão é um dos mais delicados filmes dos últimos tempos. O que se vê é, de fato, a vida - como ela é em seus aspectos mais prosaicos: uma reunião bucólica em torno de uma mãe, Hélène, que faz 75 anos rodeada por filhos, filha, noras, netos e uma velha empregada de confiança; ela tenta conversar com o filho mais velho sobre o que fazer com a casa, quadros, objetos de arte decorativa depois de sua morte.

O filme é um inventário de coisas. E de afetos: gente como a gente lidando com suas posses comuns e partilhas, expectativas e frustrações. Tudo é afetuosamente cotidiano, sem excessos no enredo, sem “viradas” de roteiro que se resume à história de um espólio, de uma diáspora familiar, uma partilha.

É um filme sobre famílias(s) atuais: no aniversário de Hélène, uma rara reunião dos três filhos, dois deles residindo fora da França em países tão distantes como Estados Unidos e China. A refeição ao ar livre lembra filmes de Jean Renoir - e nada de relevante parece estar acontecendo, exceto pela conversa da mãe com o filho mais velho, Fréderic (Charles Berling), o único que reside na França. Ele se dá bem com os mais novos, Adrienne (Juliette Binoche) e Jérémie (Jérémie Renier), mas não se sabe que interesse comum haverá nos bens familiares em vidas tão separadas pela distância - e em objetos distanciados pelo tempo (e tempo é o tema latente do filme): quadros de Corot, móveis e cristais belle-époque, telas originais de um tio, pintor há muito falecido à cuja memória Hélène se dedicou nos últimos 30 anos. Valiosos. Bom preço a pedir. E qual o preço a pagar quando a gente se desfaz de objetos investidos emocionalmente?

Há ecos de Tchekov (especialmente de "Jardim das Cerejeiras") em um filme bem “francês” com enredo realista, sim, mas praticamente sem “ganchos” dramáticos. Mesmo algumas “revelações” surpreendentes sobre o passado são colocadas em cena sem nenhuma ênfase exteriorizada; exteriorização ainda menos correspondente ao que o que pode estar se passando no interior dos diferentes personagens, especialmente quanto ao mais conservador ‘Fréderic’. Dentro de tal concepção, a performance dos atores tende a ser quase uma parceria de co-autores.

Neste sentido, o filme é plenamente realizado: Charles Berling fica mais tempo em cena com uma presença irretocável no que diz respeito à verossimilhança, fazendo ‘Fréderic’ ser alguém que poderíamos conhecer fora de um filme; Juliette Binoche mais uma vez recorre à sua máscara facial privilegiada, tanto em sorrisos luminosos como na expressão de dor e tristeza onde nada é excessivo, mas tudo é intenso. Jérémie Renier (de O Silêncio de Lorna) comparece com a discrição inerente a seu personagem.

Cada um do elenco faz sua parte com exatidão, desde a forte mãe de Edith Scob (indicada a prêmio César por este desempenho e que há 40 anos fez a ‘Virgem Maria’ em A Via Láctea de Buñuel), passando pela discreta criada vivida por Isabelle Sadoyan, até os atores dos personagens secundários (noras e neta de ‘Hélène’).

O roteiro e a câmera do diretor Olivier Assayas (*) são bem minuciosos ao percorrer os pequenos detalhes do cotidiano, sendo que, tanto os exteriores naturais como os objetos da casa materna estão admiravelmente iluminados (ou em penumbra) por Eric Gautier (**). Tais objetos, enfatizados pelos diálogos e pela fotografia, chegam a ganhar a mesma aura dos nossos possíveis objetos familiares: aqueles aos quais nos afeiçoamos, tenham ou não valor de troca – e mesmo que não tenham valor de uso prático. Representam ligações afetivas com pessoas a quem amamos, mesmo que possamos discordar delas (e elas de nós); expressam um tempo (e vidas) em comum(Atenção para os destinos de alguns objetos mais frequentemente vistos e enfatizados pela câmera e nos diálogos! E para o cenário de abertura do filme e de encerramento).

A delicadeza e des-dramatização com que este filme é conduzido podem lembrar versos de Drummond sobre “amar o perdido” que “deixa confundido o pobre coração”, lembrando que “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. Esta obra, discreta também ficará na retina do espectador que sintonizar com sua forma: horas de verão em tempo de delicadeza.
______________________________________________________________________(*) Assayas dirige e também participa de roteiros para outros cineastas, como no de Alice e Martin dirigido por André Téchiné.

(**) Gautier é o fotógrafo de Medos Privados... de Resnais, de Diários de Motocicleta, de Na Natureza Selvagem, de Sean Penn, além de vários filmes de Patrice Chéreau e de
e de outros do mesmo cineasta deste Horas de Verão, como Clean, de 2004.



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Carmen Lucia Pinheiro
Psicóloga, Psicopedagoga,
Terapeuta de Família e Casal

consult: 25215297  --  98042021
Ipanema 

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