sábado, 30 de abril de 2011

Psicotrópicos: Uma proposta química para estados e oscilações de ânimo indesejados (continuação 4))


  • Quem consome

A pesquisadora Brani Rosemberg, da Escola Nacional de Saúde Publica encontrou em 1992, um quadro assustador de consumo de tranquilizantes e antidepressivos entre trabalhadores agrícolas e pequenos produtores rurais, na pequena Conceição do Castelo cidade com cerca de 11.500 habitantes, localizada na região serrana do espírito Santo. Grande parte da população adulta diz sofre dos nervos, apresentava um diagnóstico desse tipo de doença e usava medicamentos psicotrópicos. A maioria composta de pequenos produtores rurais, via-se sem perspectivas na lavoura; estavam endividados, e muitos tinham que vender bens e colheitas antecipadas para pagar os juros. Desta forma, não seria difícil entender porque causava sintomas como insônia angústia e cansaço. Trata-se de um exemplo típico de medicalização de problemas sociais, que pode refletir o que acontece em outras regiões interioranas do país, freqüentemente julgadas a salvo de sobressaltos mentais, estresse e, principalmente, de medicação química. O que dizer da situação das grandes cidades?

Os psiquiatras S.  e J.R. preferem denunciar o que consideram mascaramento de problemas sociais e econômicos, com paliativos químicos. “Temos que parar para ver o que está acontecendo com essa população desnutrida que gasta dinheiro para sedar-se (...). S e a questão é política deve ser resolvida politicamente e não medicalizando-se a sociedade (Jornal do Brasil, 26 mar. 1986).

Entre a população jovem de ambos sexos cresce o número de adeptos de psicotrópicos em busca de excitação ou do entorpecimento. Não raro são poliusuários e costumam incluir álcool em seus perigosos coquetéis. Utilizam drogas socialmente aceitas, mas fáceis e baratas de serem adquiridas. Depois da espantosa incidência do álcool e do cigarro na juventude, segue a farmacopéia dos tranqulizantes. São as chamadas drogas lícitas, cujo consumo se expande em todas as classes sociais.

Cada vez mais crianças são tratadas com antidepressivos. Para alguns, esse medicamento só seria indicado quando o esforço familiar, o apoio da escola e a psicoterapia não auxiliam a criança a melhorar. Observa-se, entretanto, uma tendência excessiva no diagnóstico de distúrbios psíquicos nesta faixa etária, recorrendo aos psicotrópicos, muitas vezes, sem que se considere suficientemente o fator psicológico e familiar. Em alguns casos, professores e pais pressionam os médicos a receitar um psicotrópicos, sem ter certeza de que a criança realmente precisa da droga. Vários médicos consideram que o medicamento está sendo ministrado para manter crianças em camisas – de- força químicas.

Diante do mercado adulto com sinais de saturação, os fabricantes estariam se voltando para jovens e crianças, com a cumplicidade de alguns psiquiatras. A presidente da Sociedade de Psiquiatria do Rio de Janeiro Dra. Maria Tereza Costa, pergunta: “estão nossas crianças precisando mesmo de tanto antidepressivo, ou o que nos faltaria não seria a reflexão sobre nossas próprias condições e estilo de vida que impõem a elas um viver indesejado, afastado de seus direitos mais essenciais de prazer, felicidade e proteção na infância e na juventude?”.

A maioria dos consumidores de calmantes e soníferos é segundo as reportagens, do sexo feminino na faixa dos 30 a 40 anos. A insônia afetaria bem mais as mulheres que os homens.


Fonte: Marilene Cabral do Nascimento – Vitaminas, analgésicos, antibióticos e psicotrópicos: vantagens e perigos de uso de produtos da indústria farmacêutica mais consumidos no Brasil /Edt Vieira e Lent Rio de Janeiro 2003



domingo, 24 de abril de 2011

Psicotrópicos: Uma proposta química para estados e oscilações de ânimo indesejados (continuação 3)

  • Riscos e efeitos colaterais: A dependência química ou psicológica

Em se tratando de tranquilizantes, quando o consumo se dá de forma repetida e prolongada, o organismo tende a metabolizar estes medicamentos cada vez mais rapidamente, demandando doses crescentes para atingir o estado desejado. O processo é o mesmo observado com a maior parte das drogas ilícitas e relaciona-se à dependência química. Dependendo da dose de tranquilizantes, a dependência pode acontecer após algumas semanas de uso. - Muitos usuários de tranquilizantes se tornam dependentes e não conseguem suspender o seu uso. A síndrome de abstinência provocada pela interrupção abrupta do consumo desses medicamentos inclui insônia, tremores, dores musculares, suores, náuseas, falta de apetite, sensação de ansiedade, taquicardia e até convulsões. Em alguns casos a suspensão do fármaco pode exigir hospitalização. A declaração abaixo extraída da reportagem do Jornal  O Globo ilustra um caso de dependência de tranqüilizantes:

A advogada L. D, 30 anos, vivia sob estresse crônicos, com irritabilidade constante (...).Começou com meio comprimido em momentos de tensão. Depois passou a doses maiores e mais freqüentes. Até chegar a dois comprimidos diários, um para o trabalho; outro para dormir. Hoje não vive sem comprimidos (...). “Estou tentando me livvrar da dependência, mas sofro com as crises de abstinência”. – Conta L. D. (O Globo, 6 abr, 1997).

As pessoas dependentes de tranqüilizantes tendem a ficar entorpecidas, com diminuição dos reflexos e da velocidade de reação a estímulos em geral. Exibem falta de atenção, dificuldade de coordenação, disfunção sexual, distúrbios de memória e não conseguem trabalhar direito. São muito mais expostos a acidentes ao dirigir veículos ou trabalhar com máquinas pesadas. Com o uso prolongado, a ansiedade e a insônia podem aumentar ao invés de diminuir. Alguns consumidores destes medicamentos têm reações hostis, às vezes violentas; outros entram em profunda depressão e buscam até mesmo o suicídio. Há ainda riscos de problemas vasculares e hematológicos de pessoas que fazem uso de tranquilizantes, em especial em casos em que a droga é combinada com a bebida alcoólica. Juntos, tranquilizantes e álcool provocam sedação excessiva, desordem psicomotora, diminuição de reflexos e, em alguns casos, depressão respiratória. O resultado da combinação pode ser fatal. Também não são poucos os registros de suicídios cometidos por pessoas sob ação de tranquilizantes e álcool. Outro efeito conhecido desta interação é o que vem se convencionando chamar de “lacuna de memória”: A pessoa realiza atos automáticos durante um determinado período, sem que se lembre depois do ocorrido.

Os riscos associados aos tranquilizantes não afetam a todos os consumidores indistintamente. Indivíduos com mais de 65 anos são os mais suscetíveis aos efeitos destes fármacos, mesmo se o consumirem em baixa dosagem. Entre os idosos, a combinação de tranqüilizantes e outros medicamentos como antidepressivos, anticonvulsionantes ou analgésicos é especialmente perigoso. O uso de tranqüilizantes por mulheres grávidas pode causar má formação dos fetos – os antidepressivos por sua vez, não provocam dependência física, mas também são perigosos. Entre os seus efeitos colaterais mais comuns estão náuseas, dores de cabeça, tontura, alterações do sono, secura na boca e demora para ejacular. Além disso, eles expõem os consumidores a aumento de peso, hipertensão ou hipotensão arterial, alterações da próstata, distúrbio de tireóide e tendência à agressividade. De acordo com o tipo de antidepressivo, podem ocorrer ainda danos ao fígado, convulsões, infarto ou derrame. Disfunções sexuais de grau variado acometem 30 a 45% de seus usuários, motivo frequente de interrupção do tratamento com esse medicamento.

Uma grave acusação que pesa sobre os antidepressivos é a sua associação a tentativas de suicídio. Há vários registros de suicídio, homicídio e agressões a terceiros cometidos por pacientes que utilizam esses medicamentos. Não deixa de provocar perplexidades o fato de que um remédio indicado para tratamento de uma moléstia psíquica que envolve perigo de suicídio, acabe por aumentar este risco em alguns pacientes – o Prozac, símbolo de felicidade química, disponível no mercado brasileiro desde 1988 está associado à cerca de 50 tipos de efeitos colaterais. Nos EUA já foi criada uma associação de vítimas do Prozac, devido a um grande número de problemas desencadeados pelos efeitos deste medicamento. O paciente, não raro sequer é advertido das possíveis conseqüências envolvidas, de modo a ter o direito de escolha entre manter a doença que o motivou a procurar o médico ou ingressar no perigoso terreno de riscos de adquirir outras tantas.

Durante a infância, dependendo da idade dos pequenos usuários de antidepressivos, pode ocorrer uma interferência na maturação do cérebro. Ainda não se avaliaram suficientemente os danos potenciais provocados por esses medicamentos ao sistema nervoso e cardiológico da criança.

No passado recente, as pessoas, em geral, não estavam acostumadas à idéia de que os medicamentos, mesmo aqueles receitados por médicos, podem envolver tanto benefícios quanto riscos. Acreditava-se que o seu consumo seria necessariamente um instrumento em favor da saúde. Atualmente há uma atenção maior aos efeitos indesejados, e vários fármacos são retirados do mercado por conta destes riscos desconhecidos ou pouco conhecidos no momento do lançamento, mas revelados no decorrer do tempo, com o uso prolongado. No lugar destes fármacos entram outros, cujos componentes são modificados ou substituídos, levando-se em conta os danos provocados pela fórmula inicial. O mesmo processo, entretanto muitas vezes se repete com as novas fórmulas, levando a indústria a lançamentos sucessivos contra os mesmos sintomas.
Fonte:Marilene Cabral do Nascimento – Vitaminas, analgésicos, antibióticos e psicotrópicos: vantagens e perigos de uso de produtos da indústria farmacêutica mais consumidos no Brasil /Edt Vieira e Lent Rio de Janeiro 2003


sábado, 23 de abril de 2011

Psicotrópicos: Proposta química para estados e oscilações de ânimo indeseajdos (continuação 2),,


  • Falsas Tranquilidades e pseudo euforias

A idéia da pílula mágica vingou, considerada como caminho mais fácil para afastar a depressão ou a ansiedade, vencer a insônia ou o medo. Porém, apesar das cifras atingidas no mercado de psicotrópicos, cresce a crítica à banalização na indicação e no consumo desses medicamentos.
Os que sustentam esta crítica questionam a ênfase dada à bioquímica cerebral na consideração dos problemas mentais, e entendem que os fatores psicológicos, com base familiar e social tendem a ser desprezados ou minimizados. Embora não discordem de que as desordens psíquicas tenham uma interface com a biologia, compreendem que outros aspectos estão presentes nas alterações mentais. Neste sentido as explicações biológicas, fundamentais nas neurociências e o uso exclusivo de medicamentos não são suficientes e em muitos casos, sequer são abordagens mais adequadas diante do problema.
A psicologia e a sociologia, entre outros campos do conhecimento, também têm contribuições a oferecer no enfrentamento de transtornos psíquicos. Afinal tais transtornos guardam relação com o sofrimento humano; a abordagem biológica estrita deste sofrimento tende a reduzi-la a fatores genéticos e bioquímicos. Com isto estamos desaprendendo a encarar o sofrimento com algo natural da vida humana que nos desafia, enquanto indivíduos e coletividades, a repensar nossos modos de viver e de interagir com o meio ambiente social. A negação da dor e do sofrimento através de pílulas mágicas produz falsas tranquilidades e pseudo-euforias, uma vez que artificiais, incapazes de alcançar as origens do problema, aquelas que devem de fato ser trabalhadas e transformadas. O consumo indevido de psicotrópicos produz, ao invés de um equilíbrio emocional, uma máscara química para a alma.
Ainda seguindo esta linha de argumentação, os psicotrópicos atuam como paliativos químicos que não ajudam o doente a conhecer ou elaborar as causas de sua depressão ou ansiedade, por exemplo. Como as causas não são elaboradas, tende-se a estabelecer uma relação de dependência do enfermo com os medicamentos. Apenas em casos específicos se justificaria o emprego destas substâncias e, ainda assim, de maneira decrescente tendendo a ser eliminado na medida em que o paciente consegue atingir um nível mínimo de reintegração ao cotidiano.
O emprego de psicotrópicos, embora capaz de resolver o surto, nos casos mais graves, pode ser acompanhado de outros procedimentos, como a psicoterapia, que possibilita melhor compreensão do que se passa com o doente. Afinal, tão importante quanto investir para que as pessoas saiam da depressão, é possibilitar que saibam o motivo pelo qual entraram naquele estado, que tomem conhecimento de quais fatores podem desencadear crises, sobretudo para evitar que essas crises se repitam. A psicoterapia teria um papel a desempenhar no processo de autoconhecimento das vítimas dos transtornos psíquicos, auxiliando-as a modificarem estas estruturas básicas da personalidade, tornando-se menos vulneráveis as crises.                    
A visão científica e tecnológica, assim como a perspectiva de mercado tende a não considerar, ou considerar insuficientemente, os aspectos da existência humana menos possível de serem traduzidos em números cifras, pesos ou medidas. As emoções, a intuição e a espiritualidade são exemplos de aspectos que estão presentes na vivência humana, embora sejam menos permeáveis à racionalização e à experimentação científica. São elementos que caracterizam a
Natureza, além do ponto em que ela se submete à manipulação matemática. A existência abriga múltiplas qualidades e é justamente esta pluralidade, até certo ponto irredutível que a torna complexa. A construção de uma estrutura racional capaz de considerar os múltiplos aspectos da natureza humana se apresenta, assim, como um grande desafio para a cosmologia humana.

 Fonte: Vitaminas, analgésicos, antibióticos e psicotrópicos - Vantagens e perigos do uso de medicamentos  da indústria farmacêutica mais consumidos no Brasil - Marilene Cabral do Nascimento Ed Vieira e Lent/ RJ 2003.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Para os que gostam de cinema e estão no Rio de Janeiro: Vamos pensar sobre a questão da adoção?

Convidem os amigos -EM CINE - CICLO DE DEBATES
Sobre relacionamentos familiares
Toda última 4ª feira do mês será exibido um filme, acompanhado de debate coordenado 
por um profissional especializado. Dia 27/04 contaremos a psicóloga Solange Diuana.
Exibição do filme:
Destinos Ligados de Rodrigo Garcia (EUA e Espanha, 2010)
Tema:Adoção e maternidade
Sinopse:
Três mulheres: Elizabeth, uma advogada, Karen, uma profissional da saúde que engravidou aos 14 anos
e entregou a filha para adoção há quase 40 anos e Lucy, uma mulher casada que não consegue engravidar,
vivem histórias diferentes e ao mesmo tempo ligadas por um único tema: a adoção.
Coordenação do debate: Solange Diuana
Psicóloga, especialista em Psicologia Jurídica/UERJ, terapeuta de casal e família, coordenadora
do Grupo de Apoio à adoção Café com Adoção da Vara da Infância, da Juventude e do Idoso - TJRJ e
co-autora do livro Histórias de adoção: as mães.
Data: 27 de abril 2011 (4ª feira)
Horário: das 17:30 às 20:30
Local: UERJ, Rua São Francisco Xavier, 524,
10º andar, Bloco D, sala 10.030, SPA - Maracanã
Inscrições no local - ENTRADA FRANCA - Filme indicado para maiores de 14 anos
Informações: (21) 2334-0872 ou proadol@uerj.br
Conferimos declaração de participação

Realização:
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
Instituto de Psicologia- IP
Programa de Formação em Direitos da Infância e da Juventude - Pró-Adolescente



domingo, 17 de abril de 2011


Horas de Verão é um dos mais delicados filmes dos últimos tempos. O que se vê é, de fato, a vida - como ela é em seus aspectos mais prosaicos: uma reunião bucólica em torno de uma mãe, Hélène, que faz 75 anos rodeada por filhos, filha, noras, netos e uma velha empregada de confiança; ela tenta conversar com o filho mais velho sobre o que fazer com a casa, quadros, objetos de arte decorativa depois de sua morte.

O filme é um inventário de coisas. E de afetos: gente como a gente lidando com suas posses comuns e partilhas, expectativas e frustrações. Tudo é afetuosamente cotidiano, sem excessos no enredo, sem “viradas” de roteiro que se resume à história de um espólio, de uma diáspora familiar, uma partilha.

É um filme sobre famílias(s) atuais: no aniversário de Hélène, uma rara reunião dos três filhos, dois deles residindo fora da França em países tão distantes como Estados Unidos e China. A refeição ao ar livre lembra filmes de Jean Renoir - e nada de relevante parece estar acontecendo, exceto pela conversa da mãe com o filho mais velho, Fréderic (Charles Berling), o único que reside na França. Ele se dá bem com os mais novos, Adrienne (Juliette Binoche) e Jérémie (Jérémie Renier), mas não se sabe que interesse comum haverá nos bens familiares em vidas tão separadas pela distância - e em objetos distanciados pelo tempo (e tempo é o tema latente do filme): quadros de Corot, móveis e cristais belle-époque, telas originais de um tio, pintor há muito falecido à cuja memória Hélène se dedicou nos últimos 30 anos. Valiosos. Bom preço a pedir. E qual o preço a pagar quando a gente se desfaz de objetos investidos emocionalmente?

Há ecos de Tchekov (especialmente de "Jardim das Cerejeiras") em um filme bem “francês” com enredo realista, sim, mas praticamente sem “ganchos” dramáticos. Mesmo algumas “revelações” surpreendentes sobre o passado são colocadas em cena sem nenhuma ênfase exteriorizada; exteriorização ainda menos correspondente ao que o que pode estar se passando no interior dos diferentes personagens, especialmente quanto ao mais conservador ‘Fréderic’. Dentro de tal concepção, a performance dos atores tende a ser quase uma parceria de co-autores.

Neste sentido, o filme é plenamente realizado: Charles Berling fica mais tempo em cena com uma presença irretocável no que diz respeito à verossimilhança, fazendo ‘Fréderic’ ser alguém que poderíamos conhecer fora de um filme; Juliette Binoche mais uma vez recorre à sua máscara facial privilegiada, tanto em sorrisos luminosos como na expressão de dor e tristeza onde nada é excessivo, mas tudo é intenso. Jérémie Renier (de O Silêncio de Lorna) comparece com a discrição inerente a seu personagem.

Cada um do elenco faz sua parte com exatidão, desde a forte mãe de Edith Scob (indicada a prêmio César por este desempenho e que há 40 anos fez a ‘Virgem Maria’ em A Via Láctea de Buñuel), passando pela discreta criada vivida por Isabelle Sadoyan, até os atores dos personagens secundários (noras e neta de ‘Hélène’).

O roteiro e a câmera do diretor Olivier Assayas (*) são bem minuciosos ao percorrer os pequenos detalhes do cotidiano, sendo que, tanto os exteriores naturais como os objetos da casa materna estão admiravelmente iluminados (ou em penumbra) por Eric Gautier (**). Tais objetos, enfatizados pelos diálogos e pela fotografia, chegam a ganhar a mesma aura dos nossos possíveis objetos familiares: aqueles aos quais nos afeiçoamos, tenham ou não valor de troca – e mesmo que não tenham valor de uso prático. Representam ligações afetivas com pessoas a quem amamos, mesmo que possamos discordar delas (e elas de nós); expressam um tempo (e vidas) em comum(Atenção para os destinos de alguns objetos mais frequentemente vistos e enfatizados pela câmera e nos diálogos! E para o cenário de abertura do filme e de encerramento).

A delicadeza e des-dramatização com que este filme é conduzido podem lembrar versos de Drummond sobre “amar o perdido” que “deixa confundido o pobre coração”, lembrando que “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. Esta obra, discreta também ficará na retina do espectador que sintonizar com sua forma: horas de verão em tempo de delicadeza.
______________________________________________________________________(*) Assayas dirige e também participa de roteiros para outros cineastas, como no de Alice e Martin dirigido por André Téchiné.

(**) Gautier é o fotógrafo de Medos Privados... de Resnais, de Diários de Motocicleta, de Na Natureza Selvagem, de Sean Penn, além de vários filmes de Patrice Chéreau e de
e de outros do mesmo cineasta deste Horas de Verão, como Clean, de 2004.



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Carmen Lucia Pinheiro
Psicóloga, Psicopedagoga,
Terapeuta de Família e Casal

consult: 25215297  --  98042021
Ipanema 

Psicotrópicos: Proposta química para estados e oscilações de ânimo indesejados (continuação)


  • A banalização do consumo

Uma das hipóteses que se propõe a explicar a explosão no consumo de psicotrópicos tem como argumento central o período turbulento que a humanidade estará atravessando e a correspondente diminuição da resistência das pessoas em tolerar o acirramento de pressões. Haverá um mal-estar coletivo, traduzível em um conjunto de transtornos de saúde física e mental, tais como dores difusas, depressão ansiedade e pânico, afetando principalmente as populações dos centros urbanos.

Fruto em grande parte, de condições socioeconômicas do  capitalismo globalizado, essa síndrome coletiva contaria também com raízes culturais. Luz (1997:18) argumenta que transformações recentes observadas na cultura estariam propiciando  "perda de valores humanos milenares nos planos da ética, da política e mesmo da sexualidade, em proveito da valorização do indivíduo, do consumismo, da busca do poder sobre o outro e do prazer imediato a qualquer preço como fontes de consideração e status social". Sustentada pelos meios de comunicação em massa, essa profunda mudança de valores se traduz em "incerteza e apreensão quanto ao como se conduzir e ao que pensar e sentir em relação a temas básicos como sexualidade, família, nação, trabalho, futuro como fruto de uma vida planejada etc.".

O uso de psicotrópicos seria uma das respostas a esse mal-estar genenralizado. Para os seus consumidores, eles agiriam como uma defesa frente às agressões impostas pelo estilo de vida contemporâneo. A decisão de consumi-los seria o resultado  de uma fatalística escolha entre a droga e a tensão.

Uma segunda corrente explicativa, associa o aumento no consumo de psicotrópicos aos limites observados no modelo de atenção á saúde, seja no serviço público ou nos sistemas de planos e seguros privados de assistência. Modelo em que o médico é frequentemente constrangido pelo excesso de demanda e pela falta de condições adequadas de atendimento. Nestas condições, lhe é difícil dedicar tempo suficiente ao paciente para investigar a origem dos problemas psicoemocionais e conversar com ele sobre possíveis reformulações na condução de sua vida. Para aliviar sintomas, acaba prescrevendo um tranquilizante ou um antidepressivo. Sobrecarregado de trabalho, com uma formação que privilegia a terapêutica farmacológica e influenciado pela propaganda dos laboratórios, ele escreve a receita e libera o doente. 

Os clínicos gerais, seguido dos cardiologistas estariam receitando mais psicotrópicos do que os psiquiatras e os neurologistas. Entre os principais distúrbios que motivam a prescrição estão a ansiedade, as fobias e a depressão. Doenças mentais de maior gravidade (tais como as psicoses, as demências e os distúrbios obssessivo-compulsivos) estariam ocupando uma proporção menor no voume total de prescrições, fato que contraria  a concepção de vários especialistas, para os quais a utilização dos psicotrópicos é indicada principalmente nestes casos.

Este consumo de psicofármacos é explicado por ele em três causas: O período turbulento que a humanidade atravessa nos últimos 30 anos, nossa resistência para tolerar pressões ambientais, que está diminuída e diminuindo e atitude leviana de alguns médicos, que pressionados por atos admnistrativos, acham mais cômodo medicar do que conversar com o paciente sobre como ele poderia reformular sua vida (Jornal do Brasil, 26 jan, 1981).
... Em São Paulo 10% da populção utilizou psicotrópicos ao longo de 1990, número equivalente ao colhido em algumas das grandes metrópoles mundiais (...). Os remédios mais usados foram os tranquilizantes consumidos por 8% dos entrevistados. (...) As mulheres utilizam mais psicotrópicos que os homens: 14% contra 5%. Quem mais prescreve o medicamento é o clínico geral (46,9%) seguido dos cardiologistas (15,3%), neurologistas (4,5%) e outros (21,6%) (Veja, 15 jul, 1992).

Os médicos estariam receitando mais psicotrópicos do que a ciência e a prudência recomendam. Frequentemente recorrem a estes medicamentos sem uma consideração suficiente dos fatores psicológicos, familiares, ambientais ou sociais. O rótulo de doença por vezes, inibe as investigações sobre o que pode estar por trás do desajuste.

Em síntese, tanto a organização dos serviços de atenção à saúde quanto ao despreparo dos clínicos para lidar com problemas psicoemocionais contribuem para a prescrição excessiva se encontram na raiz do consumo indiscriminado e por tempo prolongado de psicotrópicos.

Há ainda uma terceira vertente explicativa para o grande consumo destes fármacos. Nela, a ênfase é atribuída ao hábito de ingerir substâncias farmacológicas como meio de resolver dificuldades da vida. Haveria um condicionamento das pessoas aos medicamentos. Desde cedo, os bebês são tratados com gotinhas de neurolépticos, sedativos e xaropes. Muitas frustrações experimentadas pelas crianças tendem a ter uma contrapartida em remédios, em algo que se ingere. A pessoa cresce condicionada a buscar resolver seus problemas e angústias com medicamento, bebida alcoólica ou a drogas. O modelo está presente na própria família, invadindo a vida da pessoa desde o nascimento.

Não se sabe o suficiente sobre conexões entre álcool, psicotrópicos e drogas ilícitas, mas supõe-se que elas existam. Alguns argumentam que o consumo de uma droga precede e dispõe ao consumo de outras drogas. Calcula-se que pelo menos 10 a 12% dos brasileiros consomem algum tipo de psicotrópico, a maioria do ponto de vista terapêutico, desnecessariamente. Diante de contrariedades emocionais corriqueiras, como vontade de chorar, ansiedade ou frustração, eis o copo d’ água e o comprimido de tranquilizante. Em situações de tristeza e desânimo, às vezes benéficas para refrear excitações prejudiciais e permitir a oportunidade de reflexão e auto-análise, mantém-se o copo d’ água e troca-se o tranquilizante pelo antidepressivo, de maneira automática, irrefletida e, o que é pior, viciosamente.

As pessoas tendem a procurar na medicina a solução para grande parte dos seus problemas e limitações. Buscam em medicamentos e drogas mudar o seu temperamento, sua personalidade, o seu estado de espírito. Na esteira desta tendência, a indústria farmacêutica amplia seu mercado, recorrendo a uma forte difusão de informações, com argumentos sedutores e, não raro distorcidos, para vender a idéia de que psicotrópicos promovem não somente a sanidade mental, mas também a alegria de viver. A cada lançamento de um novo produto há um bombardeio maciço de marketing direcionado aos médicos, o que reflete, por sua vez sobre o número de diagnósticos de transtornos psíquicos.

Ao lado disso, a venda desses medicamentos sem receita médica, apesar da existência de legislação restritiva também contribui para o consumo descontrolado e irracional. A automedicação com psicotrópicos é um fenômeno presente em todas as classes sociais. O número excessivo de farmácias, combinado à ausência de pelo menos um farmacêutico em cada uma durante todo o período em que permanece aberta, só fazem agravar o abuso no consumo desses medicamentos. A omissão ou o controle insuficiente das autoridades, o espírito mercenário de alguns proprietários de farmácia e drogarias e a ganância irresponsável de alguns laboratórios farmacêuticos compõem parte importante deste quadro.


Fonte: Vitaminas, analgésicos, antibióticos e psicotrópicos - Vantagens e perigos do uso de medicamentos  da indústria farmacêutica mais consumidos no Brasil - Marilene Cabral do Nascimento Ed Vieira e Lent/ RJ 2003.

sábado, 16 de abril de 2011

Psicotrópicos: proposta química para estados e oscilações de ânimo indesejados

*Por Marilene Cabral do Nascimento


Reunimos 86 reportagens sobre medicamentos psicotrópicos publicados em jornais e revistas de grande circulação entre 1974 e 1998. Deste total, 24% das reportagens infocaram antidepressivos, 20% os tranquilizantes, 15% destacaram os xaropes contra tosse que contêm substâncias psicoativas em suas fórmulas, enquanto 41% trataram o tema de uma maneira geral ou abordando vários grupos de psicotrópicos (a autora fez gráficos que não reproduzimos aqui por não saber como fazer). Quanto a abordagem dos benefícios e/ou riscos decorrentes do consumo de psicotrópicos observamos que 55%, do conjunto de reportagens pesquisadas destacaram os riscos, 13% os benefícios, 12% reservaram ênfase similar a benefícios e riscos, 10% não se posicionaram a respeito. E 10% das reportagens tematizaram a regulação governamental destes medicamentos.

Comentaremos a seguir as principais abordagens encontradas nestas reportagens sobre os medicamentos psicotrópicos e seu consumo na atualidade.


  • Distúrbios Biológicos

Os psicotrópicos são medicamentos que agem sobre o psiquismo humano, alterando o estado de ânimo das pessoas. De acordo com a substância utilizada, produzem ação calmante, estimulante, antidepressiva, antipsicótica, entre outras. A utilização dos psicotrópicos supõe a existência de distúbios biológicos por trás de problemas ou desordens psíquicas que podem ser tratadas com substâncias farmacológicas. Haverá um descontrole nas funções do cérebro, relacionadas a alterações químicas no organismo passíveis de serem corrigidas com medicamentos.

A importância dos aspectos biológicos na terapêutica das desordens mentais é defendida pelos integrantes do que se convencionou chamar de biopsiquiatria. As pesquisas na área recebem maciço apoio financeiro de grandes laboratórios farmacêuticos e do poderoso Instituto de Saúde Mental dos EUA, de onde partem a maioria das normas clínicas seguidas por psiquiatras do mundo inteiro.

Os primeiros psicotrópicos  entraram no mercado nos anos 1950, depois do final da Segunda Guerra Mundial em um período de grande expansão da indústria. Nas décadas que se seguem, observou-se um crescimento vertiginoso no consumo desses medicamentos. Eles passaram a ser utilizados não apenas por pacientes portadores de doença mental, mas também por donas de casa angustiadas e insatisfeitas, por executivos estressados, por adolescentes com suas inquietações e ansiedades, por idosos solitários e entediados. Recentemtente, observa-se um aumento na indicação médica destas substâncias também para crianças. Na maioria dos casos, os fármacos são receitados por clínicos.

Algumas hipóteses, se propõe explicar a banalização observada no consumo de psicotrópicos. Embora diferentes, como veremos a seguir, estas hipóteses expressam faces distintas de uma mesma questão múltipla e complexa. Revelam opções eleitas no contexto da cultura comtemporânea frente aos problemas humanos. Uma cultura em que a ciência, a tecnologia e o mercado ocupam lugar de destaque, muitas vezes prioritário, nos valores e nas crenças sociais.

Fonte: Vitaminas, analgésicos, antibióticos e psicotrópicos - Vantagens e perigos do uso de medicamentos  da indústria farmacêutica mais consumidos no Brasil - Marilene Cabral do Nascimento Ed Vieira e Lent/ RJ 2003.



Continuaremos na próxima postagem

* Este texto faz parte de um livro que fiz questão de trazer. Recomendamos a leitura do mesmo, pois  é um primoroso trabalho de pesquisa numa linguagem objetiva e competente. O assunto é bastante atual e faz parte das reflexões da psicologia que deseja um aproximação maior com as questões do mundo. Há um vasto capítulo do livro dedicado a este tipo de medicamento que  traremos aos  poucos.
Deixo registrado minha admiração ao trabalho da socióloga e professora  universitária Dra Marilene Cabral.

 


domingo, 10 de abril de 2011

O fala só






José Saramago

Hoje apesar do céu descoberto e do sol quente, não me sinto para festas. Há dias assim. E um homem não tem obrigação nenhuma de mostrar aqui um sorriso de boas vindas quando sabe quando ninguém está para chegar. Mais vale aceitar (ou assumir, como é inteligente dizer-se agora) as boas e as más horas do espírito, porque atrás de umas vêm outras e nada  está seguro, etc., etc. Desta fatalidade poderia até tirar matéria para a crônica, se mesmo agora me não estivesse passado na lembrança um homem mal enroupado que eu conheci tonto de seu juízo, o qual homem levava triste dia a andar para baixo e para cima na rua principal lá da aldeia. Chamavam-lhe evidentemente de o Tonho Mauco uma espécie de bobo fácil dos adultos e de besta sofredora das crianças. Estas coisas são assim e no fundo não é por mal, se o Tonho morresse toda a gente tinha um grande desgosto, pois claro.

Das malícias do tonto não falo: eram muitas e nem todas para por por escrito. Mas honestíssimas donas de sua casa irrompiam aos gritos e empurravam Tonho para fora dos quintais onde ele se introduzia silencioso e ágil com um gineto. Adiante. O que me impressionava então e hoje recordo era aquela cisma que o Tonho tinha de falar durante todo o santo dia, ora em altas vozes contra as portas e os prudentes habitantes que atrás se escondiam, ora em estranhos murmúrios com o rosto apoiado numa árvore, ora quase suspirando enquanto a água das bicas lhe iam correndo para a concha das mãos. Além dos seus outros nomes,apelidos e alcunhas o Tonho era o Fala-só.

Passaram prodigamente os anos, eu cresci, o Tonho envelheceu e morreu, e eu não morri, mas envelheci. Estas coisas também são assim e quando eu morrer as pessoas também vão ter muita pena. A ver.

Depois de eu ter crescido, soube que também aos poetas davam o nome de fala-só porque se achava que a poesia era uma forma de loucura nem sempre mansa, e porque alguns abusavam do privilégio de falar alto à lua ou de se lançarem a solilóquios mesmo quando em companhia. Bem sei que tudo isso vinha de uma noção incuravelmente romântica do que seja ser poeta e poesia. Mas as pessoas, vendo bem, gostam dos loucos, e, quando não os têm, inventam-nos.

Num mundo assim organizado todos tinham o seu lugar: loucos, poetas e sãos de espírito e todos estavam cientes dos seus direitos e obrigações.Ninguém se misturava. Mas decerto não era assim, porque havia sãos de espírito que passavam a loucos e a poetas, e começavam a falar sozinhos perdidos para a sociedade da gente normal. Um delgado fio é a fronteira e parte-se e gasta-se e é logo outro mundo.

Quero dizer na minha que estas crônicas são também dizeres de um fala-só. Que esta continuada comunicação tem qualquer coisa de insensato porque é uma voz cega lançada para um espaço imenso onde outras vozes monologam, e tudo é abafado por um silêncio espesso e mole, que nos rodeia e faz de cada um de nós  uma ilha de angústia. E isto é tão verdade, que o leitor vai interromper aqui mesmo a leitura, baixa o livro, levanta os olhos vagos e profere as palavras da sua dor ou da sua alegria, di-las em voz alta, a ver se o mundo o ouve e se, pela magia do esconjuro involuntário, começa a enfim compreendê-o, a si, leitor, a quem ninguém compreende e a quem ninguém ajuda.

De modo que fala-sós somo todos nós: os loucos, que começaram os poetas por gesto e imitação, e os outros, todos os outros, por causa desta comum solidão que nenhuma palavra é capaz de remediar e que tantas vezes agrava.

Fonte:  Livro A Bagagem do Viajante (crônicas) Edt Caminho,  Lisboa 2000.


Escolhi esta crônica pensando neste homem do comentado acontecimento na escola de Realengo. Não cabe aqui julgar suas atitudes, mas talvez refletir o quanto ele pode ter tentado falar e não ter sido ouvido... Há uma complexidade nestes fatos que ao invés de nos causar a natural repulsa pelo ocorrido, ouso olhar além e pensar em nós. 

Como para uns certos acontecimentos podem ser insignificantes e facilmente superados e para outros pode adquirir uma carga de sofrimento insuportável? É tênue. A mente humana é um terreno ainda inabitado em muitos aspectos; há o transtorno descrito e tratado pela ciência e há as experiências que nos afetam de modos diversos.
Regina Bomfim

sábado, 9 de abril de 2011

Para ver um mito ao piano


O exigente Keith Jarret, famoso pelos improvisos, se apresenta amanhã* no Teatro Municipal

Eduardo Fradkin
*o concerto é hoje dia 9/04


Há alguns meses, o experiente  executivo da produtora de concerto Dell'Arte, Steffen Dauelsberg andou ligando para vários profissionais do meio musical, perguntando a cada um sua opinião sobre qual era o melhor piano disponível no Rio. A enquete visava determinar o instrumento perfeito para o americano Keith Jarrett, extremamente exigente quanto à sua ferramenta de trabalho. Três pianos foram colocados à disposição, para o recital ocorrerá amanhã às 21h, no Teatro Municipal.
- Ele pediu um piano Steinway em ótimas condições e terá três à sua escolha: um que pertence ao Teatro Municipal, um novíssimo que veio de Nova York para o porto de Vitória e me foi alugado, e outro de 2006, e outro, de 2005 de empresa Gluck, de São Paulo. Este foi tocado recentemente por Nelson Freire e recebeu sua aprovação. Keith tem um ouvido muito sensível. Na última vez que veio ao Brasil, em 1989, lembro que houve um episódio curioso num hotel em Salvador. Ele estava hospedado num chalé bastante afastado da sede. Nela, uma banda começou a fazer um show. Lá de longe, ele reclamou que estava incomodado pela frequência do baixo da banda - conta Dauelsberg.

No recital de amanhã (ingressos já esgotados), o pianista - que transita entre o mundo da música clássica e do jazz - fará improvisações, incluindo a releitura de standards.
- Ele grava todos os seus recitais, e o do  Rio não será diferente. Então é possível imaginar que, se ele estiver numa noite inspirada e fizer uma grande apresentação, isso poderá se converter num CD - comenta o produtor, que está providenciando caixinhas de balas para serem distribuidas ao público na entrada do teatro, com a sugestiva inscrição "É no silêncio que o artista encontra sua inspiração".

Em entrevista ao GLOBO, há duas semanas, Jarrett falou sobre a sua arte:
- **Tocar é como pular de um rochedo sem saber o que há lá embaixo: se é pedra ou se é água. E o público está lá faminto. Tocar é correr riscos, tem de ser perigoso.

obs**: Trouxe este texto especialmente por causa deste último parágrafo. É um assunto e tanto para se pensar e nisso me coloco... Quem teve o privilégio de conseguir um desses concorridos ingressos e estiver no Rio, escreva para contar, assim como quem já teve a oportunidade de assistir algum dos seus recitais pelo mundo. Não o conhecia. Só por este parágrafo em questão e o seu conceito no meio musical, deve ser um artista e um ser humano muito interessante. 

Fonte: Jornal O GLOBO - Caderno Rio Show 08/04

domingo, 3 de abril de 2011

NAMORO SANTO

Relacionamento fracassado levam mulheres, e homens, a adiar o sexo para depois

Bety Orsini
* Escolhi trazer esta matéria por perceber que sua autora habilmente explora o assunto sobre diversas perspectivas.Cabendo ao leitor tirar suas próprias conclusões, construindo seu entendimento sobre um tema. Considero isso um bom jornalismo.

Há quatro anos, a advogada Ana Maria desistiu das delícias do sexo. Aos 32 anos ela já teve vários relacionamentos.Alguns duraram meses, outros, uma noite. Depois de muito investimento emocional em relações fadadas ao fracasso, ela decidiu fazer sexo só casada.

- A mulher sempre coloca um peso emocional enorme na possibilidade de um relaocionamento pra valer,o homem não.
A autora de " Por que os homens amam as mulheres poderosas?", Sherry Argov afirma que a dificuldade valoriza o produto. "Quanto tempo você deve esperar antes de transar? O máximo que puder" - recomenda a best-seller americana.

Missionária da comunidade católica Canção Nova, Myriam Rios segue a risca esta recomendação. Há oito anos sem namorar, ela é uma das adeptas do namoro santo, ou seja, sexo agora só depois do casamento. Mas o que significa exatamente namoro santo?
- É quamdo a gente se sente atraído por alguém e começa a conhecer, sair junto, ter uma convivência saudável - Explica Myriam - Assim o primeiro beijo acontece, o primeiro abraço... Mas namoro santo não inclui a relação sexual. Muita gente me pergunta "E se deixar para depois do casamento e for ruim?". Respondo uma coisa que aprendi na minha experiência como mulher: o beijo diz tudo. Se ele for bom, se bater aquela vontade de encontrar novamente... Então o sexo será maravilhoso.

Myriam lamenta que muitas mulheres insistam no relacionamento, mesmo quando o beijo não é bom.
- É muito difícil o sexo ser bom se o beijo não é - diz Myriam, que não impõem sua visão aos filhos Edmar de 14 anos, e Pedro, de 9. - Edmar ainda não namorou, mas observa o comportamento dos amigos e diz que eles estão muito apressados. Outro dia, ele contou que foi à festa de uma colega e ela organizou uma fila para que todos os meninos a beijassem na boca. Depois todos ficaram falando mal dela. Eu disse que não achava muito bom, nem por parte da menina, nem dos meninos. E ele concordou comigo.. Não sei se meus filhos vão adotar o namoro santo, mas com certeza respeitarão as mulheres.

O sexo liberado dos anos 60 se exauriu, diz o psicóogo Sócrates Nolasco. Para ele o sexo não é mais suficiente para manter uma relação.
-Hoje se faz sexo sem culpa e com bastante facilidade, mas parece que não tem sido suficente, sexo fast food ou delivery viraram mercadorias consumidas por pessoas-objetos. E quando as pessoas se tornam objetos, nada dará certo mesmo. Tentar um retorno ao tradicional pode ser um recurso para saber se somos mais do que genitálias excitadas. Se o encontro não vale a pena, o sexo pode valer, mas tem data de validade.

O empresário Josvander Ferreira Rocha, de 33 anos, concorda. Evangélico há 11 anos, quando entroou na igreja adotou seus princípios, entre eles o namoro santo.
- Não sou mais virgem e sei que não é fácil adotar essa postura. Mas abrir mão do sexo não é difícil só para os homens, para as mulheres também é.

Suzana , funcionário pública, namora há um ano um rapaz adepto do namoro santo radical e, durante todo esse tempo, ele não lhe deu um mísero beijo. E quando ela perguntou o motivo, ele responseu apenas: "Não beijo porque esquenta lá embaixo".

Como canta Rita Lee, amor sem sexo é amizade. A brincadeira é da psicanalista Ana Claúdia Vaz. Ela diz que existe sempre um mal-entendido entre os sexos.
- Seria esse adiamento do sexo um certo horror frente ao desencontro da relação sexual? O prolongamento da namoro associado à perspectiva do casamento parece caminhar na direção contrária das relações descartáveis, de curto prazo e instatânea que vemos acontecer a cada vibe da chamada modernidade.

Ana Cláudia lembra que amar é uma habilidade que encontra variações na cultura, nos padrões sociais e nas invenções humanas. E diz que é no mínimo curioso esse retorno ao namoro casto.
-Que promessa carregaria tal conduta? A garantia? o sucesso do encontro? Na busca pelo amor de um homem há um grande investimento da mulher, como se ela fosse encontrar algo de muito valor ao ser amada por aquele que acredita ter alguma coisa a lhe dar. O que pedem as mulheres com suas demandas? Esta seria uma nova roupagem aos seus inúmeros pedidos? Homens querem sexo e a mulher quer amor. Essa máxima, como qualquer generalização pode ser encobridora e perniciosa - Analisa Cláudia, lembrando que, assim como o amor, a muher não se deixa decifrar totalmente.

A bela dentista Fernanda Santos Oliveira, 29 anos, também optou pela castidade. Virgem até hoje, ela diz que não tem vergonha e nem esconde de ninguém sua opção.
- Mas não ando por aí falando sobre isso, vida sexual é coisa íntima. Meus amigos sabem e respeitam, assim como respeito a opção deles de ter vários parceiros. Sei que não é fácil, estudei na faculdade de medicina com muitas festas e gente bonita. É claro que existe tesão e desejo, mas nunca mudei de idéia.
E se alguém lhe pergunta o que ela fará se depois do casamento o sexo não for bom, ela responde:
- Como nunca experimentei, não tenho parâmetros para dizer o que é bom. Nem meu futuro marido, que também fez essa opção. Por isso sempre seremos únicos e especiais um para o outro, ninguém vai ficar comparando nada.

Lívia Garcia Roza, psicanalista e escritora, acha que hoje a exigência de fazer sexo apenas depois do casamento "só pode partir de uma exigência religiosa, sobretudo dos evangélicos fundamentalistas, já  que o desejo não tem data certa". Maria Cristina, de 32 anos, discorda. Diz que casou virgem por opção pessoal.
- Minhas avós, minha mãe e minhas tias casaram virgens, assim tornei a decisão de me manter pura até o casamento. Sempre achei bonita a idéia de encontrar uma pessoa que tivesse uma relação onde amor fosse muito além do desejo. Para mim, o casamento representa esse relação de amor com honestidade, fidelidade, cumplicidade e es]xclusividade.

Para Maria Cristina, só o fato de estar  dentro de uma igreja não significa que uma pessoa vá se casar virgem.
- Tenho amigas e pessoas ligadas a igrejas que não se casaram virgens. Acho que cada um de nós toma a sua decisão e ela deve ser respeitada. Mas no mundo em que vivemos, com grande apelo sexual, casar virgem é diferente. É quase impossível para uma pessoa colocar sua opinião sobre namoro casto sem ser atacado. O assunto vira motivo de deboche. Por isso não gosto de discutir minha decisão em público.

E conta que depois de dois anos de casada, tem certeza que tomou o caminho certo:
- Eu e meu marido vivemos a relação que sempre desejamos, estamos nos descobrindo a cada dia.

Bonita e assediada, a modelo e estudante de jornalismo Aiana Soares Santos do Nascimento, 23 anos, Miss Estado do Rio de Janeiro 2007, não pensa em mudar de idéia.
- Sempre fui firme nesse meu propósito sei que os frutos que vou colher serão muito melhores do que um prazer momentâneo. A maioria dos meus amigos lida bem com o meu posicionamento mas reconheço que alguns ainda se impressionam, mas isso não me abala.

É possível viver uma vida serena dispensando o sexo? A recepcionista Rosângela Maria diz que sim.
- Fui uma mulher de muitos parceiros, mas parei. Não sou religiosa, mas tenho amigas que são, e sinto que elas ficaram muito mais felizes depois que decidiram guardar seu corpo para alguém que tenha amor de verdade - Explica Rosângela, que não faz sexo há cinco anos.

Lembrando que a castidade sempre foi considerada sinônimo de santidade, o escritor e psicanalista Carlos Eduardo Leal diz que a santa sabedoria dos clérigos, padres e pastores disso muito se aproveita para angariar fiéis mas que, no entanto a fidelidade a Deus sempre teve um preço muito alto a pagar.

E cita Freud, que afirmava que a punição espera pelo desobediente, dando como exemplo na História, o casal Abelardo e Heloísa, entre outro que sentiram o peso da desobediência.
- Mas e hoje? Por que a virgindade até ao altar voltou a ser tão propalada entre as meninas? A Igreja Católica sempre fechou os olhos para muitas coisas, inclusive como sabemos, para os padres, seus "meninos" e as freiras. No refúgio do claustro muitas aventuras acontecem. Já os evangélicos subiram o tom do radicalismo e, em nome de Jesus, fazem do corpo um lugar sagrado para um único homem. Porém o tabu da virgindade nunca conseguiu evitar o calor das pulsões do corpo ardente dos hormônios em ebulição dos jovens. Temor e tremor parece continuar funcionando, mas em alguns casos só na aparência ou apenas na última fronteira a ser cruzada, rompida.

Para Leal, o valor simbólico do hímem continua sendo muito alto: ato consagrado a Deus.
- Mas em toda caso, como não é preciso mais colocar um lençol branco manchado de sangue nas janelas, nunca se sabe o que ocorre por debaixo dos panos. Tem gente que, ao contrário do ditado, põe a sua mão no fogo e adora. Mas isso é segredo.


Fonte: Jornal O GLOBO - Caderno Ela (19/03) 
obs:tinha pubicado sem mencionar a fonte... xiiii

sábado, 2 de abril de 2011

'Ter clareza é crucial'

José Carlos Cunha


  • Formação em engenharia e adiministração, experiência de 23 anos como CEO em grandes empresas e cursos de neurocoaching fazem o consultor Jão Carlos Cunha ser conhecido como um "oráculo", quando o tema é planejamento estratégico e futuro das organizações. Não à toa ele ajuda executivos a solucionar problemas, estimulando-os a colocar a caixola para funcionar


O GLOBO: Como a neurociência pode ajudar profissionais a atingirem metas?
JOSÉ CARLOS CUNHA: Nosso cérebro necessita de certezas e passa boa parte do tempo consciente, imaginando futuros, tentando antecipar o que vai acontecer. Por isso, quando nos deparamos com uma mudança, o inconsciente entra numa situação de desconforto. Para uma mudança ocorrer sem tropeços, devemos levar em conta este aspecto fisiológico.

E o que podemos entender como neuromanagement?
CUNHA: Sim trata-se de gerenciar, tendo o cérebro em mente.

E como fazer isso?
CUNHA: Reconhecendo a natureza dos nossos dilemas. Ou seja, ter clareza sobre o que queremos é crucial. Imagine a situação da mãe, convidada pelo marido para uma segunda lua de mel na Europa. Ela quer ir, mas a idéia de não poder levar o filho de um ano a tortura. O que fazer? Um processo de análise do dilema mostra que a melhor tradução para o problema é: quero ir mas sem deixar meu filho desassistido. E é essa clareza que permite identificar formas de contornar o problema e encontrar soluções, no caso, garantir que o bebê seja bem supervisionado durante a viagem do casal.

É possível trabalhar o lado criativo e inovador através da neurociência?
CUNHA: Sem dúvida! dilemas são resolvidos por insights. E insights são idéias, momentos em que tudo se encaixa e sabemos que estamos diante da resposta certa. A neurociência identifica que o insight é um processo cerebral, que tem pré-condições, pode ser estimulado. Melhorar tanto a quantidade de insights quanto a sua qualidade é um bom começo.

Fonte: Jornal O GLOBO - Caderno Boa Chance (27/03/2011)
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