" A gente não quer só comida 2" (frase da antológica canção de Arnaldo Antunes/Marcelo Fromer/ Sérgio Britto!)

 No pátio um Jardim de Rosas

José Saramago
*O texto é em português de Portugal e não criei glossário. Quem quiser empreender esta busca, sinta-se à vontade...

Ao cair da tarde (singular expressão é esta, que faz da luz ou do seu desmaio, "ao cair da noite", algo de pesado e denso que desce sobre a terra agressivamente), depois do dia de trabalho, se o tempo está macio e o cansaço não pede o rápido refúgio em casa, onde em geral outro trabalho espera, gosto de andar pelas ruas da cidade, distraído para os que me conhecem, agudamente atento para todo o desconhecido como se procurasse decididamente outro mundo. Posso então parar em frente de uma montra onde nada existe que me interesse, ser microscópio assestado às pessoas, radiografar rostos para além dos próprios ossos, penetrar na cidade como se mergulhasse num fuido resistente, sentindo-lhe as asperezas e as branduras. Nessas ocasiões é que faço as minhas grandes descobertas: um pouco de fadiga, um pouco de desencanto são ao contrário do que se pensaria, os ingredientes óptimos para a captaçao mais viva do que me cerca.

Foi um dia assim, quando descia uma rua estreita por onde o trânsito costuma-se fazer-se aos jorros, deixando nos intervalos uma paz quase rural, que descobri (já vira antes, mas nunca a descobrira, isto é, nunca tirara de cima dela o que a cobria) a ruína. Para além do muro baixo, das grades e do portão ferrugento, vi o pátio invadido peas ervas e pelos detritos. Ao fundo, um prédio de dois andares volta para a rua uma frontaria esfolada toda fundida com placas de escleroso que são os roços largos causados pela queda da argamassa. As vidraças estão quase todas partidas, e lá para dentro há uma escuridão que da rua me parece impenetrável, mas por onde certamente deslizam animais esfomeados: ratos que o abandono protege, grandes aranhas trémulas sobre as altas patas, quem sabe também as hediondas osgas tristes e palpitantes.

Estou assim com um meio sorriso reprimido, a imaginar no passeio os feios habitantes da casa, bem a salvo, tal como se me dispusesse a fantasiar habitantes doutros planetas quando os olhos se me desviam para a esquerda e logo esqueço tudo..Na empena do prédio ao lado à altura dos olhos, uma frase escrita em letras vermelhas, maiúsculas, planta de repente um jardim de rosas: A LENA AMA O RUI. Tão insólita é a presença de tal declaração neste lugar, que preciso de ler uma segunda vez para me certificar. A Lena ama o Rui. Mesmo assim, custou-me aceitar a evidência. Em regra, estas paredes abandonadas enchem-se de esgrafitos insolentes, quantas vezes obscenos e ali havia apenas apenas uma afirmação de amor, atirada contra o alheamento da cidade. E não se tratava de rabiscos lançados à pressa, no temor  de uma interrupção, de uma troça, do ridículo, ameaça quem ao público se expõe. Pelo contrário, as letras grandes haviam sido desenhadas com cuidado, e, donde eu podia vê-las distinguia-se bem que fora usada uma tinta espessa, assim como quem pinta uma outra Capela Sistina para a eternidade.

Uma torrente de trânsito avançou rua abaixo. Deixei-me levar, neste meu passo sonâmbulo, firme e longínquo, enquanto descia a rua surgiu-me à interrogação preciosa: Quem tinha escrito aquelas palavras? A questão parecerá insignificante a muita gente, mas não a mim, que tenho por ofício e vocação negar precisamente a insignificãncia.

O mais certo, penso eu, é que tenha sido um rapaz. Acabara de declarar-se, de pedir namoro, ela respondeu-lhe que sim, e então exaltado e nervoso, sentiu necessidade irreprimível de comunicar o feito à cidade. É o que deve ter acontecido, os homens é que costumam fazer essas coisas.

Mas vamos supor que foi uma rapariga. Neste caso, tudo muda de figura: já não é o orgulho tingido de fatuidade que caracteriza quase sempre as explosões sentimentais dos homens, é coisa mais grave, é compromisso maior. A rapariga não vai limitar-se a registrar na parede quem alguém a ama: é como o sabem ser as mulheres, desafiadora, e então consciente de que o diz diante do mundo todo, consciente de quanto arrisca, de quanto lhe poderá custar a coragem, faz, em vermelho maiúsculo, a sua proclamação.

Vou andando e pensando, não encontro resposta para a minha pergunta. Foi o Rui? Foi a Lena? Prefiro acreditar que foi ela. Gosto desta rapariga a quem não conheço, voto que seja feliz, que saiba sempre o que quer, mesmo que vá querendo coisas diferentes na vida. E acho que é ela quem vai ali no outro passeio, a rapariga comum, ágil e fresca, avançando decidida pelo mundo que é esta rua estreita por onde o trânsito irrompe cego. Já lá vai adiante, amanhã mulher que com uma lata de tinta plantou rosas num pátio abandonado.

Fonte: A Bagagem do Viajante: Crônicas/ José Saramago São Paulo: Companhia das Letras, 1996